Mergulho em Caverna – Uso de câmera pode ser um grande risco

Visitando um site sobre mergulho técnico, encontrei um artigo bem interessante sobre o risco de mergulhar em caverna portando câmeras subaquáticas.

O artigo foi escrito por um mergulhador experiente e profundo conhecedor das cavernas do México, relatando que durante um mergulho, realizou várias fotos de seus companheiros utilizando um sistema de iluminação muito potente, e esse excesso de luz, em dado momento, acabou cegando os mergulhadores a ponto de perderem a referência do cabo guia.

Com mais de cem mergulhos na caverna relacionada, ele sabia onde estaria o cabo guia e a direção da saída, porque conhece bem o local, mas a situação poderia ser diferente se o fato fosse com turistas.

Toda caverna tem seus riscos, mas grande parte das cavernas do México são um verdadeiro queijo suíço, requerendo uma atenção ainda maior pelo mergulhador para evitar uma possível perda do cabo.

Como mencionado anteriormente, o mergulhador fotógrafo encontrou o cabo guia e todos seguiram o mergulho, dando tudo certo no final, mas e se a situação fosse com um mergulhador sem experiência naquela caverna ?

Ele poderia ter como intuição nadar até um ponto de referência e encontrar um cabo apontando para uma saída errada, como já aconteceu algumas vezes por lá e com consequências sérias.

Mesmo utilizando uma iluminação mais fraca, o uso de câmera subaquática no mergulho de caverna, deve ser um aspecto bem planejado, pois é um ambiente em que não se pode dar ao luxo de se distrair. Olhando as estatísticas de acidentes nas cavernas do México, boa parte envolve mergulhadores utilizando câmeras e erros de navegação como fator contribuinte para o acidente.

Em um acidente bem comentado na caverna de Kalimba anos atrás, quatro mergulhadores seguiram as setas indicativas para a saída errada, onde dois deles portavam câmeras subaquáticas. Na mesma caverna, um acidente mais recente envolveu dois mergulhadores com uma câmera realizando “palcos”, que são as fotografias com cenários montados, onde são colocadas iluminações em pontos específicos para iluminar bem o ambiente e permitir a captação de belas imagens dos mergulhadores na caverna. Infelizmente o  descuido fez com esses mergulhadores também pegassem uma saída errada, porque na caverna em questão possui dois cabeamentos que apontam para saídas diferentes.

Além desses, ocorreram outros acidentes com mergulhadores com câmeras e que não foram divulgados.

Foto: Clécio Mayrink

Percepção na prática

Em 2017 tive a oportunidade de ir ao DEMA Show em Orlando, na Flórida, e posteriormente realizar alguns mergulhos nas cavernas de lá, e apesar de mergulhar em cavernas desde 2004, essa foi a primeira vez que levei meu equipamento fotográfico para uma caverna. No passado, era apenas uma pequena GoPro pra guardar algumas imagens de lembrança.

Quando o mergulho é em caverna, a coisa já é mais complicada, pois levamos uma boa quantidade de equipamentos que normalmente não fazem parte nos mergulhos recreativos. Aliado a isso, você precisa se equipar fora da água, transportar os cilindros até o local da caverna e descer uma escadaria para entrar na água. Se pretender fotografar ou filmar, precisará levar a caixa estanque completa, sendo um bom peso extra a ser transportado, fora o transtorno de preparação desses equipamentos.

Em uma das cavernas em que estive durante aquela semana, Ginnie Springs, possui um fluxo de água que sai da caverna, tornando o início do mergulho um pouco complicado, pois você precisa lutar contra esse fluxo até chegar à área de cavern, sendo preciso ter um cuidado extra para evitar um possível choque do domo angular para este não arranhe ou até mesmo venha a se quebrar, o que faria com que a caixa alagasse imediatamente. Em algumas épocas do ano, o fluxo da água saindo é tão forte, que é comum ver um ou outro mergulhador sendo “cuspido” para fora da caverna, e tendo que nadar novamente rente a lateral na entrada.

Durante a execução das fotos neste mergulho e nos demais mergulhos por lá, em alguns momentos tive a percepção de que ocorrem pequenos momentos de distração, querendo ou não isso acontece, porque você gerenciar vários aspectos ao mesmo tempo.

  • Gerenciamento de gás;
  • Computador;
  • Checar seus equipamentos, como a verificação dos registros se estão abertos;
  • Observar os integrantes do mergulho para saber se está tudo ok;
  • Admirar e curtir o ambiente;
  • Fotografar / filmar o ambiente, alterando a configuração da câmera;
  • E o principal, atenção o tempo todo no cabo guia.

Resumindo, ao mesmo tempo que você está lá para curtir e observar o ambiente, você precisa estar atento a muitas coisas ao mesmo tempo, e ainda configurar hora sim hora não, a câmera para fotografar / filmar, buscando o melhor ângulo, e exatamente por essa série de aspectos, alguns fotógrafos de caverna mencionam que é recomendável atribuir a um membro da equipe, a responsabilidade em ser o dupla do fotógrafo / cinegrafista em cavernas como as do México, para manter a atenção ao dupla e no cabo guia.

É preciso tomar muito cuidado para não levantar suspensão e não deteriorar a qualidade da água. Fotógrafos subaquáticos são muito criticados porque vários deles não se preocupam com o meio ambiente, e saem tocando em tudo quanto é coisa, ou em alguns casos, até se apoiando para evitar uma imagem tremida. Por mais cuidadoso que você seja, é realmente difícil fotografar em espaços muitos estreitos e as chances de levantar suspensão é realmente grande, o que pode acarretar na perda do cabo guia.

Equipamentos

Quanto menos itens e/ou com proporções menores, melhor. O uso de braços de iluminação com comprimento reduzido é a melhor opção para foto e vídeo em caverna. Braços muito grandes irão atrapalhar o deslocamento, criam problemas na hora de passar por restrições, fora a possibilidade de raspar na caverna e causar silt e a quebra de alguma área dela. Procure usar braços curtos.

Se você pretende fotografar usando flash, é imprescindível pelo menos um spot de luz contínua para que a câmera possa focalizar o objeto mais facilmente. Do contrário, você poderá ter dificuldades na focagem da imagem, e perder tempo sem necessidade.

Um descuido do fotógrafo pode gerar silt, nesse caso, foi um descuido meu mesmo – Foto: Clécio Mayrink

Vale lembrar, que essa iluminação não deve ser contabilizada como luz integrante da segurança do mergulhador, ou seja, você não deve contar com ela como uma das três iluminações de segurança.

É possível mergulhar em caverna e fotografar com segurança ?

A resposta é sim e não.

Se você está com uma câmera nova e/ou possui pouca experiência em fotografar embaixo d’água, meu conselho seria: Não leve.

Minha recomendação é que você deve conhecer bem o ambiente antes de ingressar com uma câmera e ter muita experiência com seu equipamento, para que você não perca tempo alterando configurações e perdendo atenção com a foto / vídeo e se distrair.

Se for mergulhar em uma caverna no México, conheça antes o local e tente compreende a complexidade da caverna, para se familiarizar com navegação. Conheça bem o ambiente até você ter condições de planejar uma sessão de fotos do local. Certamente o resultado final será muito melhor com um mergulho mais seguro.

Alguns fotógrafos subaquáticos acostumados a realizar produções em cavernas, muitas vezes colocam uma seta no cabo guia com uma identificação pessoal, para “confirmar” a direção da saída quando a produção terminar, quando caverna possuir cabos com duas saídas com distâncias diferentes. Uma boa dica, é que antes de começar a produção, verificar o rumo da saída com uma bússola e confirmar se o rumo está certo antes de iniciar o retorno em direção à saída.

Por que não ouvimos sobre acidentes envolvendo distração com câmeras em cavernas ?

A grande maioria dos mergulhadores técnicos e “caverneiros”, tem a péssima mania de não comentar seus erros, acreditando que os demais mergulhadores vão falar mal por aí, sendo um grande erro na minha opinião. Acho até engraçado alguns ditos experientes da velha guarda afirmarem que jamais tiveram algum tipo de aperto ou situação ingrata, mas as notícias sempre correm nos bastidores do mercado do mergulho, e indiretamente todos tomam conhecimento, então, acho que esconder não traz benefícios.

Na minha concepção, expor um problema em forma de relato vai contribuir para que outras pessoas não passe pela mesma situação.

O mergulho em caverna se tornou muito mais seguro com o tempo, justamente pelas análises realizadas sobre os acidentes, gerando novos protocolos e procedimentos, afinal de contas, ninguém é infalível.

Se você já passou por alguma situação de risco e quiser relatar de forma anônima (ou não), temos uma área só para estes casos.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP) e responsável pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministérios dos Esportes.

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos no país e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é mergulho em naufrágio.

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