Recentemente um grupo de mergulhadores da Bahia identificou um naufrágio na costa baiana.
Por volta de 2010, pescadores profissionais acabaram se deparando com um naufrágio, e posteriormente, decidiram vender a marca GPS do local. Em 2018 eu e outros três colegas negociamos a marca com os pescadores e num dia de mar calmo, fomos levados até local, distante 12 milhas a sudoeste do Farol da Barra, mais ao sul.
Com intuito de valorizar a venda da marca, o pescador nos mostrou alguns artefatos do referido naufrágio, sendo um deles, uma garrafa com a identificação do nome Fratelli Vita. Essa marca de refrigerantes foi bem conhecida em Salvador no passado, contudo, o que nos chamou a atenção, foi um dos telégrafos, com a gravação em alto relevo do nome Belmonte-Bahia.
Naquela ocasião, acreditamos que seria o nome do navio ou do fabricante do telégrafo. Mergulhamos de rebreathers com uma água limpa, sem correntes, sendo possível avistar a silhueta antes mesmo de alcançar o naufrágio. O mergulho durou pouco mais de uma hora, possibilitando realizar o vídeo de 2018.
Percebemos então que era um navio pequeno, com aproximadamente 25 metros de comprimento, bem desmantelado, descansando aos 40 metros de profundidade, num fundo de areia. Seu casco possui 25 metros de comprimento e sua proa está virada para ângulo de 325º, estando bem desmantelado, sobrando pouca coisa em relação ao leito marinho.
Seu motor à diesel é o que mais se destaca. Avistamos quatro âncoras almirantado, sendo uma em sua popa, outra ao lado do motor e duas na proa. Encontramos dois guinchos ambos na proa e muitas garrafas localizadas a meia nau. No passado havia um segundo telégrafo, mas infelizmente no último mergulho percebemos que não estava mais no local.
Pesquisas
O naufrágio foi apelidado de “navio das garrafas”, devido a quantidade de garrafas ao redor dele. Com o encontro do telégrafo, pesquisamos no livro Naufrágios e Afundamentos na Costa Brasileira do professor José Góes de Araújo e percebemos que havia um navio com o nome Belmonte naufragado no ano de 1941.
Naquela época a fábrica da Fratelli Vita já existia, pois ela havia sido fundada em 1902, e produzindo garrafas de vidro, cristais e de refrigerantes. Com o achado desta garrafa, isso indicava que o navio havia sido abastecido uma carga em Salvador e seguia em direção para outro destino.
Em contato com um pesquisador de naufrágios com intuito de obter mais informações para a pesquisa, acabamos conseguindo obter mais dados que ajudassem na identificação do naufrágio como sendo o Belmonte, sendo um dos aspectos, o motor três cilindros, coincidindo com o indicativo no Lloyd Register. Outro aspecto se diz respeito a localização, que está de acordo com uma notícia do Jornal Correio da Manhã do dia 20/12/1941, mencionando a frase “na altura do Morro de São Paulo”. Com essas informações em mãos, foi possível afirmar que se tratava do Belmonte.
O navio
Sendo pouco conhecido, o naufrágio não teve interferência por mergulhadores. Recentemente retornamos com outros mergulhadores para realizar mais medições e gerar novas imagens. O navio foi construído pela Stocks & Kolbe em Kiel, na Alemanha no ano de 1914, porém, não há indícios de sua venda ao Brasil.
Ele atuava como cargueiro pelo menos desde setembro de 1920 e transportava passageiros, malas postais, toneladas de açúcar, madeira, óleo, dentre outras cargas diversas. Foi muito utilizado para o transporte de café e cacau para navios maiores (vapores da época) que se destinavam ao exterior e que não conseguiam atracar em portos pequenos como os de Belmonte e Ilhéus, ao sul das Bahia.
Uma curiosidade, é que o Belmonte chegou a transportar até Salvador, os náufragos do vapor Alliança, naufragado em setembro de 1927 na barra do Rio Doce, e chegou a sofres um grave acidente com a explosão e incêndio em janeiro de 1938, segundo registros.
Em sua última navegação, o Belmonte saiu em dezembro de 1941 de Salvador com destino a cidade de mesmo nome, Belmonte, e iria pra outros portos menores transportando uma carga variada, entre elas, bebidas e remédios.
Na madrugada do dia 18, saindo da Baía de Todos os Santos, mais precisamente em frente a ilha de Itaparica, acabou colidindo contra o vapor Norma, que navegava em direção contrária (Rio de Janeiro – Salvador). O vapor Norma de 400 toneladas, não teve danos, mas o Belmonte com suas 90 toneladas apenas, acabou naufragando em razão do rombo em seu casco. Seus 10 tripulantes e 9 passageiros foram resgatados pelo vapor Norma e seguiram até Salvador.
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László Mocsári
Médico Anestesiologista e Intensivista, com formação em Medicina Hiperbárica, autor dos livros Rebreather Simplificando a técnica e Rebreather Mergulhando Fundo na Técnica.



