Usualmente chamamos de naufrágio os restos de navios e submarinos, mas também podem ser estruturas diversas, como aviões, carros, vagões de trens ou artefatos bélicos por causas naturais ou artificiais.
As condições do fundo, podem criar alterações de pressão e correntes que são percebidas pelos peixes, e tornando um excelente abrigo, além de um substrato para a fixação da fauna e flora bentônica, gerando um novo ecossistema em uma numa região em que eventualmente não existia nada.
Além da concentração de vida, cria-se a possibilidade de se mergulhar num entre estruturas e objetos, tornando um mergulho bem atraente.
O mergulhador bem treinado descobrirá uma nova atividade, requerendo técnicas específicas para que cada mergulho seja bem aproveitado, além da possibilidade em realizar penetrações mais seguras entre as estruturas do naufrágio, havendo a exigência de um treinamento em ambientes com teto.
Os naufrágios podem ser divididos em quatro categorias: enterrados, desmantelados, semi-intactos e intactos, requerendo técnicas especificas para uma exploração adequada. No caso do Whydah Gally, ele era um navio de madeira, naufragando há quase 300 anos, e a estrutura já não existe e as peças encontram-se espalhadas ou enterradas no fundo arenoso, sendo um bom exemplo de um naufrágio enterrado com partes desmanteladas. O rebocador Atlas, é permite penetrar no interior da estrutura, sem um exemplo de um naufrágio intacto se transformando em semi-intacto.
Um navio pode naufragar já desmantelado, em razão de explosões ou colisões. Um naufrágio também pode naufragar intacto, que com o passar dos anos, irá se desmantelar, onde a cada ano, encontramos uma situação diferente no mesmo ponto de mergulho.
O naufrágio se transforma para o formato “sem-intacto”, que no caso dos mergulhadores recreativos, deve compreender que na parte intacta, utiliza-se técnicas de mergulho pertinentes ao caso, sendo o mesmo caso na parte desmantelada. Um ponto importante é considerar a possibilidade de encontrarmos naufrágios enterrados, de difícil visualização para olhos não treinados.

Por quê os navios afundam ?
Recifes perigosos
Há milhares naufrágios não mapeados, como alguns na região de Abrolhos e Parcel Manoel Luís. Por via de regra, quando há sobreviventes nestes naufrágios e regressam para a civilização, geralmente informavam aos cartógrafos e responsáveis pela navegação a posição onde ocorreu fato.
Guerras
Após vários conflitos envolvendo vários países, muitos navios foram afundados. Não só por ação de canhões e torpedos, mas também, ocorria do capitão decidir pelo afundamento. Um exemplo foi a Fragata Brasileira Dona Paula, que naufragou na ilha dos Franceses em Arraial do Cabo, enquanto perseguia o navio corsário Fournier.
Em outros casos acontecia do capitão sacrificar a própria embarcação para que ela não caísse em mãos inimigas. Um exemplo é a Frota Alemã da Primeira Guerra Mundial aprisionada em Scapa Flow.
Mau tempo
O mau tempo sempre foi uma preocupação. Tufões, ciclones e mares violentos faziam tremer a tripulação dos navios. A névoa também era um dos fatores, por criar baixa visibilidade, dificultando a navegação. Um exemplo é o naufrágio do Imbetiba, em Arraial do Cabo.
Como na época não havia uma instrumentação adequada à bordo dos navios, o número de naufrágios era crescente, e ainda nos dias atuais e mesmo com toda a tecnologia, alguns navios ainda passam por situações difíceis e chegam à afundar pelo ao mau tempo.
Falha humana
Alagamento, fogo, explosão e colisão foram atribuídos a falha humana. Um tripulante embriagado pode atear fogo em um navio e até mesmo o colocá-lo em rota de colisão. Manutenções mal feitas podem permitir um alagamento, fogo ou explosão.
Houveram em alguns casos de erro de navegação, que chegou a levantar a hipótese do naufrágio ser intencional, com o objetivo do recebimento de um prêmio de seguro. Um exemplo disso é o naufrágio Lily, que colidiu “acidentalmente com a llha da Galé, em Santa Catarina. A princípio, o capitão informou que a colisão ocorreu devido a névoa, mas posteriormente, foi descoberto que o seguro do navio não seria renovado, e o armador optou pela colisão proposital.
Naufrágio proposital
Com o crescimento da indústria do mergulho, muitos navios começaram a ser afundados com o intuito de se tornarem recifes artificiais. Algum tempo depois, alguns países passaram a afundar aviões, tanques de guerra, carros, vagões de trens, dentre outros tipos. Nos Estados Unidos, muitos lagos receberam destroços para o incentivo da prática do mergulho em naufrágios.
Outro motivo para esta prática, é a grande concentração de vida marinha que estes destroços acabam atraindo. Organizações ambientais também realizam esses afundamentos com este objetivo.

Naufrágios desmantelados e/ou enterrados
Naufrágios enterrados, e principalmente os desmantelados, é importante conhecer bem as estruturas para a identificação das partes da embarcação em si, uma vez que o mesmo tende a estar espalhado em uma grande área.
É importante ser ter uma boa noção de como é um navio, e em que pontos localizam-se suas partes principais. Vale a pena obter plantas e croquis da embarcação, para se ter uma ideia geral de como são construídos e os pontos importantes das estruturas.
Por exemplo, sabemos que o hélice sempre fica na popa de um navio, e achar essa peça no mergulho, não é o indicativo da localização desta parte do navio. Apesar de pouco usual, pode ser encontrado até mesmo entre a meia nau e a proa ou em compartimentos de carga do navio, quando a mesma está sendo levada como carga ou item de reposição, um ponto que merece total atenção de quem pesquisa naufrágios.
EM situações como esta, o mergulhador deve conferir se junto ao hélice, há outros itens normalmente localizados na popa dos navios, como eixo, leme, cabeços de amarração, para ter a certeza do local onde estamos mergulhando.
Definir a exata posição das partes de um naufrágio desmantelado pode não ser uma tarefa fácil. A visitação em navios em museus, contribuem muito para um entendimento dessas estruturas.
Em um naufrágio desmantelado, a estrutura espalhada ocorre por:
- Tempo de permanência do naufrágio no fundo. As estruturas se deterioram com o tempo e se soltam da embarcação;
- Explosões das caldeiras e partes durante o naufrágio;
- Explosões propositais de saqueadores;
- Correntes;
- Ondulações;
- Mau tempo;
- Enrosco de redes de pesca.
Devemos ter uma atenção especial às estruturas desmanteladas, pois a quantidade de peças soltas e o estado em que se encontram podem ser perigosas ao mergulhador. Por exemplo, uma peça grande e que esteja mal apoiada no fundo, poderá cair com um simples toque ou deslocamento das bolhas do mergulhador.
Pedaços de lâminas e pontas formadas pela deterioração também criam risco de acidentes., sendo imprescindível o uso de roupas completas e principalmente luvas, em razão da possibilidade das cortes nas partes metálicas.
O mergulhador deve ter domínio de sua flutuabilidade e uma excelente configuração dos equipamentos, evitando tocar no fundo e levantar suspensão, para não comprometer o mergulho.
Evite tocar nas ferragens para evitar ferimentos. Mesmo que superficiais, os metais sofrem muito pela oxidação, sendo imprescindível estar com a vacina antitetânica em dia.
Os naufrágios se tornam com o tempo, bons recifes artificiais, onde sempre há um crescimento da vida marinha em suas estruturas. Ao mergulhar nos naufrágios, devemos ter atenção para que encontros agradáveis com seres marinhos não se tornem grandes sustos. Eu mesmo já tomei um grande susto com um mero em um naufrágio em Cabo Frio, pois a baixa visibilidade, não me permitiu ver a presença do enorme peixe saindo de um dos porões assustado com a minha presença.
Naufrágios intactos e semi-intactos
Nesse tipo de naufrágio, devemos realizar uma cuidadosa inspeção externa, obter a exata localização dos pontos de referência no naufrágio, saber em que posição ficam os porões, ponte de comando, portas e, eventuais rombos e outras aberturas no casco, que com a técnica e treinamento corretos, permitirá a entrada e a saída do mergulhador com segurança.
Antes mesmo de iniciar esse tipo de mergulho, é importante “conectar” o naufrágio com a superfície, com um cabo de descida e subida, pois facilitará o início e o final da exploração.
É importante lembrar que não é incomum encontrarmos bolsões de ar nas estruturas submersas e, que devemos ter muito cuidado ao explorar esses ambientes. O ar desses bolsões podem existir concentrações e pressões parciais altíssimas de dióxido de carbono e/ou gás sulfídrico, sendo este último resultante da decomposição orgânica. Clique aqui e leia um artigo sobre o tema e os riscos.
Principalmente em naufrágios recentes é possível haver estes destes bolsões, óleos e lubrificantes, podendo provocar danos aos olhos do mergulhador, por exemplo, ou ainda, sujar a máscara reduzindo visibilidade à zero. Encontrando uma superfície espelhada próxima ao teto, o mergulhador deve evitar o espaço.
Outro aspecto importante, é que havendo um bolsão, ele contribui para a aceleração da deterioração do espaço, possibilitando o enfraquecimento das estruturas e risco iminente de queda de partes metálicas no mergulhador.
Mapeamento
Os naufrágios normalmente possuem uma estrutura padronizada. Quando estão intactos, seus compartimentos, corredores, peças apresentam uma estrutura lógica. Mesmo após o acidente e início do desmantelamento, até mesmo quando já desmantelado e/ou enterrado, o comportamento das partes metálicas poderá ser analisado em razão do tipo de acidente, posição do casco no fundo marinho, tipo de fundo, dentre outros.
Podemos, à princípio, prever de que maneira iremos encontrar as passagens e compartimentos antes de iniciarmos uma penetração, mesmo que na pesquisa prévia não tenhamos um acesso à planta da embarcação.
As partes internas dos naufrágios facilita a orientação do mergulhador, já que as estruturas dão sustentação ao navio, como vigas, colunas e as estruturas que dividem os compartimentos.
É comum encontrar navios que não tenham naufragado na posição vertical e seu interior pode criar uma confusão na identificação dos espaços. As vezes vemos o teto ou paredes no lugar do chão, sendo importante, observar a posição do navio inicialmente.
Estabilidade dos naufrágios intactos e semi-intactos
O mergulhador de naufrágios deve compreender a arquitetura das embarcações para analisar quais peças estruturais geram a sustentação à seção que e pretende penetrar, permitindo avaliar se a penetração é segura ou se há risco de desmoronamento.
O mapeamento depende de atualização constante e o uso de cabos guia permanente é arriscado, porque pode se romper com a mudança as alterações das estruturas. Então, cabos guias devem ser instalados e removidos em cada penetração. O mergulhador de naufrágio deve dominar os conhecimentos do uso de carretilha e ancoragem do cabo guia.
Outro aspecto importante é a formação de sedimentos no naufrágio. Eles ocorrem pela decomposição do ferro, em razão da aceleração da presença de água salgada e ação química de organismos marinhos, provocando a formação de materiais particulados em todos os pontos do naufrágio. Este material particulado, conhecido como “silt”, não se encontra apenas no fundo, mas nas paredes laterais e nos tetos, e mesmo tendo uma técnica de flutuabilidade e trim, dificilmente conseguiremos manter uma boa visibilidade no espaço.
A presença no local de correntes e ondulações, pode aumentar o risco nas penetrações em naufrágios muito rasos, o que torna esses navios mais perigosos.

Naufrágios Artificiais
Com vários programas ambientais e turísticos, a cada ano mais e mais recifes artificiais são criados em diversos pontos de mergulho. Essa prática é muito difundida nos Estados Unidos, e vêm ganhando amplo no Brasil com o surgimento de diversos programas de recifes artificiais.
No Brasil temos diversos pontos de mergulhos com a presença de naufrágios artificiais., sendo o primeiro deles, o pesqueiro Moreia, afundado na Laje de Santos, no litoral paulista. Também tivemos as balsas Espera 7 e Dianka na costa do Paraná e o Victory 8B em Guarapari.
No Estado de Pernambuco, diversos rebocadores foram afundados com o apoio do governo local e cuidadosamente posicionados no fundo, sendo um grande atrativo para os mergulhadores.
A criação de naufrágios artificiais necessitam de um preparo do navio para ser afundado., e para minimizar o impacto ambiental e para melhorar a segurança dos mergulhadores, o navio precisa ser totalmente limpo e livre de possíveis enroscos e objetos que possam criar ferimentos nos mergulhadores, sem contar, com a possibilidade dos materiais que possam contaminar o meio ambiente, como o óleo dos motores, cabos, fios elétricos, dentre outros, que precisam ser retirados.
Novas aberturas são criadas e as existentes normalmente são alargadas para facilitar a passagem dos mergulhadores e melhorar a luminosidade no interior do naufrágio. Havendo áreas consideradas de risco, podem ser isoladas totalmente para evitar a entrada dos mergulhadores.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



