Estive na Ilha Manoel, Malta, proximidades da fortaleza de mesmo nome, construída por Manoel Rohan em 1723.
Malta era rica em naufrágios de guerra.
Naquela semana, com o apoio da Cresta Dive Centre, já havia mergulhado no destroier HMS Maori, no paquete SS Margit, em um PT Boat americano, em um bombardeiro Blenheim, em um torpedeiro Beaufighter e no vapor HMS Hellespont. Estes dois últimos mergulhos profundos.
Dessa vez seria no Coralita, uma espécie de lanchão com 135T de deslocamento, que participara de duas Guerras Mundiais.
Recebera granadas turcas em Gallipolli e bombas dos Stukas em Malta, onde finalmente afundou, em 1942, sendo encontrado em 2003 pelo mergulhador e pesquisador David Mallard. Ele descobriu mais tarde que o nome da embarcação era X 127. Todavia, por repetição, ficou mesmo como Coralita.
No porto, era um mar sujo, oleoso. Com o guia inglês Conrad, descemos por uma longa escada de ferro até a água. Na extremidade desta, já submerso, coloquei as nadadeiras. A visibilidade era ruim e a água estava com 21°C. Sensação desconfortável ao soltar a escada e olhar o fundo escuro.
Nadamos sobre um assoalho marinho pedregoso, com muito lixo. Até uma cadeira de plástico, coberta de algas, ereta, como um trono de uma divindade subaquática. Linhas de pesca, latas, garrafas, um pote de barro onde morava um sonolento polvo. Ah, cardumes de peixinhos e ouriços felpudos também.
Logo encontramos o Coralita. Era pequeno. O casco do naufrágio se encontrava na perpendicular do cais, com a proa rasa sobre uma faixa de pedras. A popa na areia, a mais de 20m.
Nadamos sobre o convés. Lá estava uma placa pouco maior que um prato onde se lia:
“1915 – 2015 Water Light X 127 Gallipolli Malta”
Incrível ! Então era verdade o que diziam !

Na borda e no deck, há mais de 100 anos, ainda estavam cabeços duplos de amarração, passa-cabos, vigias circulares e uma grande escotilha que facilitou minha penetração.
Ainda deu tempo de explorar o mecanismo do leme aos 22m e, a bombordo, a meia nau, observei um buraco no costado.
Seria o dano que afundou a embarcação ?
O guia sinalizou o fim do mergulho e eu confirmei.
A temperatura continuava em 21°C e a corrente permanecia nula.
Voltamos para a escada de ferro com 35min de tempo de fundo.
Que história !

Nestor Magalhães
Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.
Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.
Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.
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