O início do Mergulho no Brasil

Nota

Conteúdo disponibilizado pelo Alcides Falanghe de seu arquivo pessoal.

Texto extraído do Manual do Curso de Monitores da Bandeirantes do Mar, de 1979, com autoria do Comandante Alfredo Francisco Costa Ferreira e adaptações feitas por Clécio Mayrink e Alcides Falanghe.

 

O Brasil – Um pioneiro

País possuidor de 8.000Km² de costa marítima, fez com que seus primeiros habitantes sentissem desde início uma atração pelas coisas do mar.

As tribos de índios Taramambesus, que habitavam as praias do nosso litoral sul, desenvolveram uma atividade subaquática que consistia em caçar peixes mergulhando em apneia, munidos de uma fisga de madeira, no qual eram exímios praticantes dessa atividade submarina, deixando registrados em nossa história os primeiros passos na arte do mergulho.

Tão logo o homem branco se instalou em nosso território, conhecedor que era da técnica europeia da escafandria, que por essa época já delineava seu horizonte no velho continente, passou a empregá-la em nossas águas a fim de explorar os nossos fundos em busca de tesouros que teriam a fama e o enriquecimento rápido.

Foi assim, que o holandês Knivet, aventureiro e viajante contumaz, utilizou pela primeira vez no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, um traje de mergulhar, constituído de uma roupa de couro untada com sebo ebreu para torná-la impermeável, com um grande capuz cheio de ar, para permitir a respiração quando submerso. Assim equipado, lançou-se ao mar, a fim de recuperar os canhões de um forte na Baía de Guanabara, que haviam sido arrastados para o fundo por uma tempestade, e abocanhar a recompensa oferecida no valor de 10.000 coras de ouro, por Salvador Corrêa de Sá.

Sua tentativa resultou em um fracasso total, valendo, porém, a intenção daquele que, apesar de não ser brasileiro, doou à nossa história o registro da primeira experiência com um traje de mergulho realizada em nosso país, logo após o descobrimento, quando na Europa, Guglielmo de Lorena, efetuava suas primeiras experiências com o “sino de mergulho”.

Outro nome que ficou gravado em nossos registros é de André Tower, artífice que idealizou e fabricou a roupa usada por Knivet.

Na segunda década de nosso século, o garimpo no Brasil tomava um impulso extraordinário. Luiz Charles Person, francês de nascimento, emigra para o nosso país e lastrado com o avanço da exploração subaquática em sua terra natal, funda em São Paulo a primeira fábrica de escafandros clássicos.

Inicialmente dedica-se a manufatura de um equipamento exclusivo para a operação nos rios brasileiros na extração do ouro de seus fundos, entregando ao mercado, o “Paulistinha”, escafandro que possuía apenas o capacete ligado a um espaldar que se apoiava as costas do mergulhador. Era abastecido de ar por uma mangueira que ligada à superfície numa bomba de alta pressão operada manualmente.

Este tipo de equipamento teve enorme sucesso e foi quase que exclusivamente empregado por todos aqueles que se dedicavam ao garimpo. Tanto o escafandro como a bomba de ar foram patenteados por Person, encorajando-o a partir para um novo modelo de escafandro clássico marítimo adotado para trabalhos pesados sob a água, este por sua vez registrado com o nome de “Paulista” enquanto que a bomba fornecedora de ar de alta pressão, com o nome de “Sopra-fogo”.

Em nossos dias a firma Person continua em atividade, produzindo não só equipamentos para escafandria além de acessórios para náutica e desportos subaquáticos.

Em 1939, inicia-se na cidade do Rio de Janeiro, o desporto subaquático com a caça submarina, e equipamento trazido da Europa pelos tripulantes da Panair do Brasil, companhia de aviação extinta em 1966, distinguindo-se esta atividade logo no início quando nosso país organizou o sexto Campeonato Mundial, obtendo vários títulos nessa modalidade.

A turma dos veteranos do Iate Clube dos Marimbás, como os irmãos Borges e Bruno Hermany e V. Velisch fizeram suas primeiras incursões às Ilhas Cagarras, na entrada Baía de Guanabara. E ainda a este grupo de veteranos que inicia a fundação da Associação Brasileira de Caça Submarina (ABCS), entidade à qual se devem os primeiros campeonatos regionais. A ABCS acabou sendo integrada na Confederação Brasileira de Desportos.

O Brasil esteve presente no primeiro Campeonato do Mundo em 1958, obtendo Hermany, o sexto lugar. Filiou-se a Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas em 1959 e Hermany, no ano seguinte vence individualmente, o terceiro Campeonato do Mundo, ficando o Brasil, como terceiro classificado em equipes.

O Brasil possuiu vários personagens famosos na caça submarina, como Delmar Correa, Arduíno Colassanti e muitos outros. Américo Santarelli também fazia parte deste seleto grupo, e ficou famoso também por seus recordes mundiais de apneia e pela inauguração da fábrica de equipamentos de mergulho e náutica, Cobra Sub, no Rio de Janeiro, além do lançamento do livro denominado “Super Sub”, que foi uma referência para quem iniciava no mergulho.

Foi também em nosso país, que se disputou a primeira prova feminina, durante a terceira Taça de Ilhabela, em São Paulo, da qual foram vencedoras Pituca Volcoff, Lica Barroso, Dedé Maciel e Gilda Paiva.

No Estado de São Paulo, existem notícias de atividades submarinas desde 1951. Antes da Federação Paulista de Caça Submarina (FPCS), em agosto de 1961, existiram duas associações de clubes, a Associação Paulista de Caça Submarina (APCS) e a Liga Santista da Caça Submarina (LSCS).

Como pioneiros e grandes incentivadores da modalidade, salientam-se: Luiz Massa, dirigente do Grupo dos Apaches, Vitor Hugo, Magalhães Neto e Orlando Alexandre, como os grandes divulgadores através de reportagens e artigos que além de divulgarem a atividade, forneciam conselhos técnicos aos praticantes.

Foi na Associação Cristã de Moços de São Paulo, onde se ministraram os primeiros cursos de caça submarina em nosso estado, em 1958, ao qual posteriormente foram acrescentadas noções de escafandria.

Infelizmente, foram esses caçadores que procuraram dar os primeiros passos na atividade do Mergulho Autônomo. Nas décadas de 50, 60 e parte de 70, podemos encontrar uma caça submarina exuberante, na qual se toleravam conhecer escafandros e se projetavam algumas provas, como orientação subaquática e concursos de fotografia. Como se tratam de atividades muito diferenciadas, podemos afirmar que os restritos conhecimentos de escafandria (como era chamada na época) confundiam a caça, e esta continuava atrofiando o desenvolvimento do Mergulho Autônomo.

A Segunda Grande Guerra Mundial havia terminado, quando chegou ao Brasil, um antigo mergulhador de combate da Marinha italiana de nome Gigi Del Maschio. Conhecedor dos segredos do mergulho militar e ações submarinas, estabeleceu em São Paulo e funda a primeira fábrica de escafandros autônomos da América do Sul, produzindo não somente as garrafas de aço, como a válvula reguladora de ar e material sobressalente. Esta nova e pioneira indústria recebe o nome de “Atlântida”, sendo fundada em 1955. Posteriormente, passou a propriedade do Sr. Renault, que desenvolveu os extintores de incêndio, abandonando em parte a fabricação de material de mergulho. Vendeu as maquinas de roupa e deixou de fabricar pés de pato, máscaras e armas. A.C. Renault adquiriu a fábrica e voltou a fabricar os escafandros que em 1975, com Know How de Álvaro Vilar Moreira, lançou novos reguladores de ar, e um escafandro com torneira mais moderna.

Em meados dos anos 70, Cláudio Guardabassi possuía uma loja de mergulho São Paulo, e ministrava aulas de caça submarina e escafandria na ACM (Associação Cristã de Moços).

Com o falecimento em 1980 de A.C. Renault, tomou conta da fábrica sua filha Iracema Renaud que lançou uma nova linha de escafandros e o manômetro de alta pressão acoplável ao regulador de ar. Seus escafandros e equipamentos subaquáticos são utilizados dentro do território nacional e, também, tem sido exportados para vários países da América do Sul e da África.

Em 1975, entidades comerciais começaram a desenvolver seus cursos próprios, procurando através da competição aumentar seus clientes. Foi então que o Dallo Sub com Júlio LLorente e João Daher Filho, entusiasmados pelo japonês Morita e pelo brasileiro Pedro Kuramoto (Assista a entrevista com Fernando Kuramoto), abriram os primeiros cursos de mergulho autônomo, baseados no método PADI.

Era a nova atividade que com seu encanto e sua potencialidade se abria nos meios paulistas. Morita e Kuramoto chegaram a lecionar no Instituto Oceanográfico da USP. Suas sessões de mar, ainda se intercalavam entre caçadas e mergulhos com aparelho autônomo.

A PADI norte americana, não possuía conhecimentos desta atividade e a falta de certificados e a concretização de projetos inicialmente elaborados, dificultou a sobrevivência deste novo curso, exigindo urgentemente a criação de um currículo essencialmente brasileiro em tecnologia e conhecimentos próprios. Foi na busca desta solução que surgiu o Instituto de Exploração Subaquática Dallo Sub (Júlio LLorente Neto, João Daher Filho, Raul Cutait e Álvaro Vilar Moreira). Esta organização foi a primeira escola de mergulho autônomo brasileiro. Nele se repudiava a caça submarina e toda a ação predatória subaquática. Com ele, foi instituído o primeiro certificado de mergulho do Brasil e seus cursos iniciais passaram a obedecer as regras da moderna tecnologia.

De seu gabinete científico, surgiram estudos realizados por mergulhadores como os de Sônia Godoi Carvalho Lopes e Marietta Salles Silva. De seu gabinete técnico, além dos cursos começaram a desenvolver a fotografia e o cinema submarinos. Na preocupação de seu fomento de nível, criam o Primeiro Curso de Monitores de Mergulho Autônomo do país, tendo sido diplomados os seguintes alunos: Sônia Lopes, Marietta Salles Silva, Eduardo Matarazzo, Jose Castro Waney Júnior, Paulo de Mesquita, Ricardo Hering e Marcelo de Souza Scarcela Portela.

Antes de completar um ano de existência, o Instituto Dallo Sub foi à falência.

No entanto, os mergulhadores diplomados pelo mesmo, resolveram fundar duas organizações, uma de caráter científico, a Sociedade Brasileira de Estudos e Pesquisas Subaquáticas (SBEPS) que durou até janeiro de 1981 sob a presidência de Alfredo F. Costa Ferreira, estando inscrita por essa época no Comitê Científico da Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas e a outra, de natureza técnica denominada Associação Bandeirantes do Mar (Assista a entrevista com Alcides Falanghe onde fala sobre a escola, propriedade de Álvaro Vilar Moreira, Ricardo Hering e Marcelo Portela).

A ABM pôde aproveitar a experiência técnica do IESDS e desenvolver-se, definitivamente, em termos brasileiros. Além de manter seus cursos em funcionamento permanente, a ABM criou delegações no Brasil e no exterior. Assim enquanto levava o mergulho autônomo a imensas regiões do Brasil intercambiava técnica e didática com a maioria dos países do mundo. Seus cursos e sistemas de trabalho, começaram a ser cedidos e copiados, dando origem a novas escolas e cursos.

Assista a série Pioneiros do Mergulho Brasileiro e saiba mais sobre o passado histórico do mergulho no Brasil

Por:

Redação

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Veja também:

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Seguramente ele foi um dos responsáveis por trazer a técnica do mergulho autônomo ao Brasil, numa época em que o país não possuía escolas de mergulho.

Fernando Kuramoto – Pioneiros do Mergulho Brasileiro – Episódio 16

Cinegrafista e fotógrafo subaquático, é um dos pioneiros em instrução de mergulho no Brasil. Trabalhou coma equipe do Aquashow.

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Engenheiro de profissão e mergulhador desde 1969, formou milhares de mergulhadores e considerado um dos responsáveis pelo avanço do esporte no país.

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