Primeira Expedição de Mergulhadores com Rebreather ao Naufrágio Índia

No dia 22 de setembro deste ano, no primeiro dia de primavera, chegamos ao cais de embarque de Perocão, em Guarapari – ES, às 6 horas. Pegamos nossos cilindros na estação de recarga para análise dos gases ansiosos para embarcarmos rumo ao naufrágio Índia, onde faríamos nosso tempo de fundo mais extenso desde a primeira expedição.

Esta condição só seria possível devido ao uso de rebreathers, equipamentos que aproveitam o oxigênio de nossa exalação aumentando o tempo de fundo em grande quantidade se comparado com o circuito aberto (equipamento SCUBA padrão que joga o gás exalado para o meio externo).

Acreditamos que foi algo histórico, pois foi a primeira expedição de mergulho no Índia, onde somente foram mergulhadores com rebreather.

Na realidade a ideia deste mergulho começou muito tempo antes, quando o biólogo marinho Ivan Pierozzi Jr. me ligou convidando para fazer o curso de rebreather juntamente com ele, ministrado pelo Gabriel Katter. Um cara que dispensa apresentações quando falamos de rebreather. Confesso que relutei um pouco, mas mergulho é o meu fraco, qualquer modalidade de mergulho em qualquer lugar. Isso rolou na primeira quinzena de julho deste ano.

Após algumas aulas on-line, começamos a parte prática do treinamento dia 15 de setembro com a montagem do rebreather, que é um eCCR, ou seja, um rebreather de circuito fechado eletrônico e todo controlado eletronicamente pelo controlador Apeks, com vários acessórios de segurança, como: um computador Predator da Shearwater on board, HUD (Heads Up Display) que através de luzes de LED informa a PO2 (Pressão Parcial de Oxigênio) e ADV (Automatic Diluent Valve) que injeta o gás diluente automaticamente.

As vantagens percebidas nesta máquina são a resistência e a facilidade de montagem e desmontagem, principalmente em relação ao sistema de filtragem do CO2.

A aula em águas confinadas ocorreu no dia 16 de setembro, e neste dia, descobrimos o quanto era diferente atingir o TRIM, posição alinhada com o corpo e o equipamento como se fosse um paraquedista, com relação ao equipamento de circuito aberto. Somente atingimos colocando lastro na extremidade superior de seus dois cilindros de 3 litros montado um de cada lado na máquina. Mesmo assim fomos ainda imperfeitos.

Realizamos vários mergulhos antes como forma de desenvolvimento do curso CCR Advanced Recreational Trimix, mergulhando na Lagoa Azul em Aracruz, onde fomos aos 24m em meio a troncos de árvores antigas submersas. Em um dos mergulhos, demos a volta na Escalvada durante aproximadamente 140 minutos. Neste mergulho testamos ao máximo esta máquina ao nadar contra uma forte corrente no fundo, o que ocasionou uma forte respiração. Mas mesmo assim a máquina respondeu bem.

 

Foto: Ivan Costa Santos

 

No total perfizemos um tempo de fundo de 521 minutos em 7 mergulhos que precederam a expedição ao naufrágio Índia, pois o que é relevante no rebreather é a soma dos tempos de fundo e não o número de mergulhos. A grande vantagem de mergulhar com rebreather é o tempo de fundo ser muito superior e com bem menos volume que os tradicionais cilindros, além do gasto inferior com gases quando comparado à quantidade utilizada no sistema de circuito aberto.

Retornando ao dia de nossa expedição principal, o mar não estava 100%, mas pudemos ver algumas baleias pelo caminho.  Chegamos por volta das 9h, realizamos a última lista verificação antes de entrar na água e iniciamos o mergulho às 09:31h. Infelizmente a visibilidade estava baixa, aproximadamente 6m. A temperatura estava incrivelmente baixa para a região, 17°C. Foi o mergulho com as condições mais extremas que já peguei até hoje por lá, pois sempre mergulhamos com água muito clara e temperatura bem agradável.

Como estávamos de rebreather, o perfil foi de 40 minutos de tempo de fundo nos 52m e tempo total de 96 minutos (run time = tempo de fundo mais os tempos das paradas de descompressão durante a subida).

Foi o mergulho mais longo que fizemos por lá, porém subimos um pouco antes do planejado devido ao frio. Estávamos com roupa úmida, exceto o instrutor de rebreather.

Mergulhos mais profundos com roupa úmida tem como desvantagem a compressão da roupa, o que a torna mais fina e retendo menos calor. Entretanto, o uso do rebreather faz com que percamos calor mais lentamente por estarmos respirando o mesmo ar que exalamos na temperatura corporal. Mesmo assim sentimos bastante frio devido ao longo tempo de exposição. Vale ressaltar que a minha roupa era de 7 mm e não adiantou muito. Nas paradas de descompressão a partir dos 11m a temperatura subiu para os 19°C, o que aliviou um pouco.

O mergulho foi bem interessante com a vida marinha que costumeiramente vemos por lá e ainda podemos constatar que os destroços continuam intocados. Muito provavelmente graças a dificuldade de acesso. O interessante do mergulho com este equipamento é podermos ouvir os sons mais nitidamente, tal como o canto das baleias.

O próximo passo é praticar mais com este equipamento e quem sabe um dia, virar instrutor de alguma destas máquinas tecnológicas, porém sem atalhos e sim, com bastante tempo de fundo.

Temos uma infinidade de lugares para explorar em nossa região do Espírito Santo e com as vantagens que esta tecnologia pode nos oferecer. Os pontos de mergulho técnico daqui já são muito interessantes mesmo com circuito aberto e podem nos proporcionar ótimas experiências.

Ivan Costa Santos

É graduado em Administração de Empresas, é instrutor de mergulho recreativo e técnico com as mais variadas especialidades, tendo um conhecimento aprofundado em Áreas Ambientais.

Proprietário da Aqua Sub, uma escola e operadora de mergulho em Vitória-ES desde 1998, já formou mais de 2.000 alunos. Também atua como mergulhador comercial, possuindo no total mais de 8.000 mergulhos realizados no Brasil e no exterior.

É Master Instructor pela PADI, Tec Trimix Instructor e EFR Instructor Trainer.

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