Era década de 90 quando aos finais de semana, ia para a cidade de Angra dos Reis mergulhar com os clientes da Easy Diving, uma antiga escola e operadora de mergulho que existiu na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
As opções de operadoras de mergulho em Angra dos Reis naquela época eram poucas, e utilizávamos a estrutura da antiga e conhecida Pousada do Jamanta, onde o seu proprietário era conhecido pelo apelido de “Jamanta”. Reza a lenda que ele ganhou esse apelido por causa de um acidente com uma arraia jamanta no passado.
Naquela época, a pousada possuía estrutura relativamente simples, e diversas escolas levavam seus clientes para lá.
O “Jamanta”, infelizmente faleceu alguns anos atrás, e foi sem dúvida, um dos pioneiros do mergulho no Brasil. Ele conhecia o mar de Angra dos Reis na palma das mãos, e sempre contava fatos históricos e detalhes bem interessantes sobre a região.
Na época não tínhamos GPS, e ele nos levava com precisão até os naufrágios simplesmente tendo marcas em terra como referência, e a precisão era de cair o queixo.
Numa dessas ocasiões, ele comentou sobre um navio negreiro que pouca gente conhecia e que era pouco visitado. O naufrágio já havia passado por saques e restava pouco dele. A curiosidade falou mais alto e pedimos que nos levasse até o local.
Lembro que navegamos bastante até lá, uma ilha bem para o interior da Baía de Angra dos Reis.
O naufrágio se encontra a poucos metros da superfície, sendo ainda possível ver o que restou do seu casco de madeira. Lembro até de ver alguns cravos de bronze no local, comprovando a antiga idade do naufrágio… 1862.
É o navio negreiro Camargo, um navio que transportava escravos no passado.
É um mergulho fácil de ser feito pois, está em local bem abrigado, mas o local se tornou sítio arqueológico e atualmente é preciso ter autorização para mergulhar por lá.
Dinheiro público sendo jogado no lixo
Alguns anos atrás, um conhecido pesquisador anunciou em alguns meios de comunicação, (inclusive em fórum de mergulho), a criação de um projeto patrocinado com verba pública, para a realização das buscas ao navio negreiro Camargo, e posteriormente pesquisas arqueológicas subaquáticas no local.
Para a realização desse projeto, o governo iria liberar uma verba superior à R$ 200 mil para a execução dos trabalhos.
A grande questão, é que o naufrágio não só já havia sido descoberto na década de 80, como já foi visitado inúmeras vezes pelos mergulhadores cariocas.
E fica a pergunta… vão buscar o que já foi achado ?

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



