Doideiras do Mergulho: Mergulhando no Forte São Matheus em Cabo Frio

Com sempre digo, mergulhar no passado era sempre uma aventura, e na década de 80, logo após meu curso básico realizado pela CMAS, no Rio de Janeiro, acabei indo com um amigo do clube que nadava até uma antiga loja da Nautika para adquirir um cilindro de alumínio S80 de uma conhecida marca brasileira, coisa nova para a época.

Pra quem não sabe, durante um bom tempo os cilindros de alumínio tinham a importação proibida pelo governo brasileiro, porque os militares acreditavam que eles poderiam ser usados como armas. Boa parte (ou todos) que chegaram via importação, chegaram em terras tupiniquins sem a válvula, pois na documentação de importação constava que os cilindros eram destinados para o uso em veículos, então, conseguia-se passar pela alfândega para posteriormente receber o adesivo da marca e a colocação da válvula Yoke, novidade também naquela época.

E assim, os primeiros cilindros S80 de alumínio chegavam ao Brasil, chamando cada vez mais a atenção de todos os mergulhadores pelos benefícios que os cilindros de alumínio tinham em relação aos de aço-cromo molibdênio.

Depois de comprar o cilindro S80, efetuamos a recarga e pensamos: onde vamos mergulhar ?

No final decidimos ir para Cabo Frio mergulhar no Forte São Mateus. Vale lembrar que naquela época eu deveria ter por volta dos 15/16 anos de idade, então, as coisas não eram tão fáceis.

Em algumas ocasiões no passado, realizava snorkeling em Cabo Frio saindo pela Praia do Forte e nadava até o Forte São Matheus e depois ao redor dele. Em dias de mar extremamente calmo, atravessávamos o canal até alcançar o naufrágio Carolina, que fica ali nas imediações.

Voltávamos cansados de tanto nadar e mergulhar o dia todo, e agora, como seria mergulhar respirando com o novo cilindro na área onde só fazíamos snorkeling ?

A curiosidade era grande e como só tínhamos um cilindro e um regulador (US Gold da Cobra Sub), tivemos que dividir o uso do cilindro… sim, era o que tínhamos !

Não tínhamos manômetro e muito menos colete equilibrador. Era mergulhar com backpack mesmo, usando um relógio Casio G-Shock para contar o tempo e um profundímetro de coluna d’gua da Cobra Sub.

Calculamos aproximadamente o tempo de fundo que teríamos com o gás no S80, ficando um tempo X para ser usado por cada um de nós. Enquanto um ia respirando com o cilindro, o outro ia acompanhando o mergulho da superfície. A profundidade era relativamente baixa, e como o próprio título diz, uma doideira total e sem fundamento, se compararmos com os dias atuais.

No final das contas apenas rodeamos o forte num mergulho aproximado de 30/40min feito por cada um de nós, mas a sensação de poder respirar embaixo d’água foi maravilhosa e viciante, e logo tivemos que dar um jeito de conseguir mais equipamentos, porque essa coisa de dividir o tempo, obviamente não iria muito longe.

Naquela época os equipamentos eram muito mais caros e de difícil aquisição, então, toda e qualquer aventura continha muitos perrengues inimagináveis para aqueles que ingressam no mergulho nos dias atuais.

O tempo passou, mas as lembranças daquela época ainda constam na memória, que ainda guarda as belíssimas imagens das águas cristalinas que a região guarnecia.

 

Forte São Mateus em Cabo Frio-RJ – Foto: Clécio Mayrink

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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