Muitos mergulhadores da “antiga” sempre comentam que o mergulho atual deixou de ser um esporte de aventura e que não dá tanto prazer como no passado.

Mas por que tantas pessoas dizem isso ?

Antigamente tudo era arcaico, e posso afirmar isso com base em meu conhecimento como mergulhador, pois iniciei o mergulho autônomo ainda na década de 80, época em que não tínhamos equipamentos importados. Tudo era adquirido através de pessoas que viajavam e traziam os equipamentos do exterior, então, tudo era mais difícil e complicado, até porque não tínhamos o acesso às informações como temos hoje com a Internet.

Muitas vezes era olhar algum catálogo de equipamentos dos principais fabricantes para saber o que havia em lançamento, só que os catálogos chegavam tarde ao Brasil, e algumas vezes, os produtos já até haviam saído de linha.

Era muito comum a fabricação de equipamentos e acessórios à base da gambiarra, e mergulhar, era parte da aventura.

Não tínhamos embarcações apropriadas para o mergulho, saíamos em embarcações desconfortáveis e muitas vezes, em barcos de pesca, com cheiro de peixe e óleo diesel, contando com a ajuda das pessoas para subir pela lateral do barco. Algumas vezes isso era feito utilizando pneus colocados na lateral da embarcação, servindo de apoio para colocar o pé e fazer força para subir.

Como tudo era feito sem a estrutura que normalmente encontramos hoje em dia, tudo era rudimentar. O mar virava e a embarcação quebrava, e tudo se tornava um filme dramático. Todos corriam para ajudar a sanar o problema para sair daquele risco.

Inúmeras vezes me via indo para a região de Angra dos Reis, Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios, iniciando o mergulho de praia saindo rente as pedras, e buscando novos locais de mergulho com os amigos aventureiros. Passávamos por morros, matagais e pedras para alcançar possíveis novos pontos de mergulho, e era a tentativa de realizar um mergulho diferente. Havia total falta de noção dos perigos, que em algumas ocasiões ele realmente existia, mas o espírito de aventura e de desbravamento era enorme entre os integrantes, e o objetivo era fazer algo diferente, descobrir um novo ponto de mergulho e rir no final do dia com as histórias hilárias dessas incursões.

Lembro também que um famoso colégio no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, realizava algumas incursões até a Ilha de Cataguases, em Angra dos Reis, onde era feita a coleta de vários seres marinhos, que eram colocados em uma piscina plástica de bebês, onde os alunos tinham uma boa aula de biologia, e posteriormente esses animais eram devolvidos ao mar, mas acho pouco provável que isso ainda ocorra. Então, saíamos em busca dos seres marinhos na localidade, sem a preocupação de correnteza no local.

O autor na década de 80

Evolução dos equipamentos

Na década de 90 começaram as importações e passamos a ter acesso aos equipamentos estrangeiros mais facilmente. Manômetro era um dos itens mais desejados. Octopus e colete equilibrador do tipo “Jacket”, eram considerados “complementos” e poucos podiam comprar. Eram caros, raros e quase ninguém tinha.

No período em que trabalhei na Easy Diving, uma escola de mergulho na época localizada no bairro no Itanhangá, próximo à Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, passei a ter contato com o pessoal de Angra dos Reis, e a pousada mais badalada na época era a Pousada do Jamanta, que aliás, existe até hoje e foi modernizada.

Sempre tínhamos festas à noite, com direito a muita bebida, algo inimaginável atualmente. Não tínhamos horário para sair para o mergulho e o importante era aproveitar as festas, churrascos e mergulhar no dia seguinte em algum lugar bacana, sendo sempre levados pelo próprio Jamanta, infelizmente hoje “in memoriam”.

Era um final de semana com mergulho e muita diversão, onde alguns casais se formaram a partir dessas festas.

A chegada de novas certificadoras

Aos poucos foram chegando mais certificadoras, e lembro bem quando o Gabriel Ganme representando a PADI entrou na loja em que trabalhei. Isso foi em 1990 e na época o certificado mais usado no Brasil era o da CBPDS / CMAS, que tinha uma verdadeira maratona em cursos de mergulho.

Um curso básico durava até 4 finais de semana, com aula iniciando às 8 da manhã e terminando às 17h, onde aprendíamos a mergulhar inclusive com narguilé de mergulho comercial / profissional e ser obrigado a nadar de 500m em X minutos.

Eram cursos mais demorados e extensos, porém os mergulhadores saíam melhor preparados e bons de água. O medo não existia, pois no meu caso as aulas eram dadas na Urca, onde a visibilidade média não passava de 1.5m, então, qualquer lugar já dava um “mergulhasso”, porque sempre a água era melhor.

Ser um mergulhador naquela época era ser praticamente um astronauta da NASA, como se fosse uma honra pra falar que mergulhava. Hoje em dia, qualquer pessoa se torna um mergulhador, principalmente porque os cursos foram atualizados e ficou muito mais fácil para mergulhar, e com a entrada dos equipamentos importados e novas regras de mergulho, tudo ficou muito mais fácil e menos rigoroso, mas o que chegou trazendo benefícios, também trouxe alguns problemas, como a má formação de muitos alunos.

Falta de exigências

Não havia um grande padrão de segurança, cada um realizava o mergulho pra si, sem planejamento adequado e tempo determinado. Era seguir a pequena tabela descompressiva e pronto.

O chamado “Trim” simplesmente não existia e ninguém cobrava ou criticava outros mergulhadores pelo mau posicionamento na água e coisas do tipo, pois o negócio era mergulhar, curtir a vida marinha, a natureza e depois rir dos perrengues que ora alguém passava embaixo d’água.

Configuração cada um tinha a sua, e ninguém criticava o que cada mergulhador inventava, pois a coisa era literalmente uma aventura. Ninguém ficava em eterno treinamento como acontece hoje, o negócio era mergulhar de qualquer forma.

De certa forma fazíamos muita coisa errada mesmo, coisas impensáveis nos dias atuais, mas felizmente não conheço ninguém que tenha morrido por causa do mergulho.

Com muitas risadas, aventuras em menos preocupações com críticas, será que o mergulho no passado não era realmente mais divertido e aventureiro, tendo em vista que não tínhamos o “não pode isso e aquilo”, e sem o mimimi que muitas vezes vemos por aí ?

Pequeno barco de operação de mergulho da Lighthouse no RJ em 1989 – Foto: Clécio Mayrink

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.