Encerrou no último dia 22, o Curso de Extensão de Mergulho de Segurança Pública do CBMES (CEMSP). O treinamento foi ministrado para 9 Policiais Federais, especialistas em mergulho autônomo e integrantes de diversos NEPOM (Núcleo Especial de Polícia Marítima) do Brasil e do COT (Comando de Operações Táticas).
O CEMSP possui carga horária e grade curricular equiparada a certificação com reconhecimento internacional em Public Safety Diver, atendendo normas americanas da Occupational Safety and Health Administration (OSHA) e da Federal Emergency Management Agency (FEMA).
Além de se habilitarem nas técnicas internacionais, os policiais também se tornaram instrutores dessa modalidade, podendo assim ter autonomia para habilitar outros policiais em seus grupos. Além das aulas acadêmicas, os alunos passaram por duas semanas de treinamentos em águas confinadas e abertas, em técnicas de padrões de busca e localização com e sem detectores de metais; coleta de evidências e provas; planejamento de operações de mergulho; investigação subaquática; reflutuação de veículos; mergulho em águas contaminadas e varreduras de cascos de navios para localização de explosivos e drogas.
Nos últimos quatro dias de curso, além de se habilitarem em técnicas internacionais de mergulho de segurança pública os policiais brasileiros também foram certificados como PSD Specialist Hull Search Diver (Varredura em casco de navio) por uma certificadora internacional conferida pelo Maj Ronaldo Possato que é pertencente ao Comando de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Nesta ocasião foram realizados simulados para localização de drogas escondidas em cascos de enormes navios no Porto de Tubarão, Vitória-ES, em uma condição de visibilidade zero e ambiente confinado, os alunos planejaram toda a operação, levando em conta inúmeros fatores de segurança e operacionais, conseguindo atingir os objetivos propostos de forma extremamente eficiente.
Infelizmente o Brasil faz parte de uma rota internacional de tráfico de drogas, que possui como destino principal a Europa, onde este tipo de mercadoria é revendida por 10 vezes o valor de custo ao crime organizado, que esconde as cargas de narcóticos em navios mercantes.
Em 2019, somente no Porto de Santos, foram apreendidas quase 80 toneladas de pasta de coca. Por haver um aumento de tecnologia para a fiscalização nas cargas e containers, os criminosos utilizam mergulhadores para instalar as drogas nos cascos dos navios.
A História da atividade de mergulho na Polícia Federal
Entrevistando o Agente de Polícia Federal Eduardo Rosas Ribeiro, responsável pela atividade de mergulho no COT, e aluno dos cursos supracitados, ele nos trouxe uma série de fatos históricos do mergulho na Polícia Federal:
A Polícia Federal foi criada em 1944, e sempre teve mergulhadores nos seus quadros porém nesses primórdios eram alguns poucos policiais praticantes da atividade ou ex mergulhadores profissionais ou da Marinha. Com a criação do Comando de Operações Táticas (COT), em 1988, essa unidade, por ser voltada exclusivamente para Operações Especiais, cultivou o desenvolvimento do mergulho entre seus integrantes com a realização de cursos com bombeiros e a aquisição de equipamentos na década de 90.
O mergulho acontecia então de forma incipiente, com um viés de resgate e com perfil um tanto quanto recreacional no que toca a equipamento e sua configuração. Além disso não existia uma doutrina de uso voltado para a atividade policial nem uma frequência de treinamentos e rotina de formação de novos mergulhadores.
Em 2005 o COT passou a formar mergulhadores no CMAUT – Curso Expedito de Mergulho Autônomo da Marinha do Brasil e em 2008 adquiriu 40 conjuntos SCUBA e o Curso de Operações Táticas passou a ter na sua grade curricular o módulo de mergulho autônomo, que permanece até hoje. A unidade também passou a possuir em seus quadros mergulhadores formados como instrutores no meio civil.
Enquanto isso, nessa mesma década de 2000, houve iniciativas em NEPOMs, os Núcleos Especiais de Polícia Marítima, tomadas por policiais para desenvolvimento do mergulho com a aquisição de equipamentos e realização de cursos. Na segunda metade da década de 2000, com a preparação para grandes eventos, o Rio de Janeiro chegou a realizar cursos básicos e avançados, ainda que com formatação e equipamentos recreacionais, formando por volta de 30 alunos. O NEPOM de São Paulo também tentou alavancar a atividade mas em ambos os lugares não houve continuidade no processo de formação e treinamento.
Em 2013 o COT adquiriu 20 equipamentos de circuito fechado FROGS, para infiltração, mesmo equipamento utilizado pelos Mergulhadores de Combate da Marinha e pelos Forças Especiais do Exército Brasileiro, e passou a se adestrar também nessa modalidade de mergulho.
Em 2017/2018 mergulhadores do COT e NEPOMs reflutuaram um veleiro naufragado a 54 metros de profundidade na costa de Recife, que estava transportando drogas com destino à Europa, e que foi afundado pelos traficantes após serem abordados e escoltados ao porto de Recife a 20 milhas de terra. Essa foi a primeira ação de mergulho na Polícia Federal com perfil de Segurança Pública. A operação foi executada com equipamentos que não eram os mais adequados e com suporte precário mas foi exitosa.
Em 2019 foi conduzido em Itajaí – SC pelo COT o I Curso de Mergulho Operacional (CMOP), com foco nas atividades de segurança pública, embora com equipamentos recreativos. Os alunos tiveram instruções de Resgate, Busca e Recuperação e Varreduras, entre outros trabalhos submersos.
Também em 2019 mergulhadores do COT e mergulhadores de NEPOMs formados no CMOP localizaram e resgataram um fuzil HK 416 perdido em operação de combate ao contrabando no Rio Paraná próximo a Guaíra, em águas com correnteza e visibilidade zero. Ainda nesse ano, mergulhadores do COT afundaram com o uso de explosivos os navios Riobaldo e Natureza na costa de Tamandaré-PE, numa operação do ICMBIO para criação de recifes artificiais. Após o afundamento os mergulhadores visitaram os locais para aferição de profundidade e posição dos naufrágios.
Nos últimos anos várias apreensões têm sido feitas de drogas em cascos de navios, num modal cada vez mais utilizado pelos traficantes.
Em 2020 e 2021 houve vários acionamentos para mergulhadores realizarem buscas em cascos de navios à procura dos chamados “parasitas”, pacotes ou recipientes cheios de droga ocultos nos espaços existentes nos cascos dos navios. A maioria foi feita por mergulhadores da Marinha ou dos Bombeiros, em apoio à Polícia Federal, mas em abril de 2021 mergulhadores do NEPOM do RJ encontraram 400 kg em um navio no Porto de Itaguaí e em setembro 40 kg no Porto do Rio de Janeiro.



