Naufrágio Aquidabã: Mergulhando no escuro sombrio de Angra dos Reis

Era 7 de novembro de 2001 e lá estava em Monsuaba, um pequeno distrito nas proximidades de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro.

Naquela época, meu amigo Reinaldo Moine era proprietário de uma operadora e pousada de mergulho, a “Divers Trip”, e me convidou para realizar alguns mergulhos diferenciados, por serem mais complicados de serem feitos durante as operações comerciais.

Aproveitando uns dias de fim de férias, corri pra lá com alguns pontos de mergulho em mente, e um deles era o famoso naufrágio Aquidabã, que se localizava relativamente próximo da operadora, inclusive.

O Aquidabã era navio de guerra, mais propriamente dito um encouraçado de esquadra. Foi considerado um dos navios mais avançados do mundo na época. Seu casco era resistente, possuia vários canhões de grande calibre e que o ajudaram na participação de eventos de grande relevância para o Brasil.

No dia 21 de janeiro de 1906, o Aquidabã encontrava-se fundeado na Baía de Jacuecanga junto com os Cruzadores Barroso e Tamandaré, e durante a noite, o Aquidabã sofreu uma violenta explosão de um paiol contendo cordite e afundou rapidamente. o cordite era um tipo de explosivo usado na época como munição.

Por algum motivo desconhecido, o Aquidabã transformou-se numa enorme bola de fogo e partiu-se ao meio, levando para o fundo do mar 112 tripulantes. Por causa disso, foi erguido em 1913 na Ponta Leste, um monumento em memória aos oficiais que faleceram no acidente. O local fica bem próximo à localização do naufrágio em si.

Há quem diga que o navio sofreu uma sabotagem por alguns aspectos levantados na época, mas isso não foi comprovado oficialmente.

Aqui no Brasil Mergulho há vários artigos sobre o Aquidabã, com todo o seu histórico em detalhes.

 

Aquidabã em operação

 

O Mergulho

Apesar da proximidade com a terra e baixa profundidade, mergulhar no Aquidabã nunca foi uma tarefa fácil, pois a visibilidade no local normalmente é baixíssima em razão do tipo de fundo lodoso.

Encontrá-lo também não é uma das tarefas mais fáceis, pois o naufrágio está totalmente desmantelado e parcialmente enterrado no fundo lodoso, aquele tipo de fundo onde enfiamos o braço até chegar ao ombro, fazendo com que o braço desapareça por completo no lodo.

Partimos para o local e o alcançamos em poucos minutos, pois a distância é inferior à 2Km da praia, onde se encontrava a operadora na época.

O mar estava extremamente calmo, sem ondulações e sem previsão de mudanças climáticas, então, demos início às buscas com a sonda, tentando encontrar as partes mais expostas do naufrágio para fora do lodo. Com algo surgindo na sonda, nos equipamos e iniciamos a descida na água esverdeada do local.

Nos primeiros metros ainda tínhamos uns 5 a 7m de visibilidade, porém, alguns metros mais, e a visibilidade foi caindo drasticamente até chegar a menos de 1m.

Na verdade, alguns centímetros.

 

Localização aproximada – Foto: Google Earth

 

Nossa orientação se deu com o que tínhamos de iluminação na época, no meu caso, uma lanterna Arturo com 50w de potência e lâmpada halógena, hoje, impensável usar uma dessas, pois além da baixa potência quando comparada às atuais lanternas de led disponíveis no mercado, a bateria pesada de níquel cádmio (NiCd) não durava mais que 45min, e quando usada em águas com temperaturas mais altas, havia a possibilidade de derretimento dos componentes internos pelo excesso de aquecimento da lâmpada. As chance disso ocorrer eram enormes, até que infelizmente acabai passando por isso durante um mergulho, apesar de ligá-la no fundo com água mais fria.

Mas voltando ao mergulho, de olho no computador, a profundidade girava em torno dos 15-17m, e nadando praticamente de centímetro em centímetro, repentinamente quase enfio a cara em um resto de metal retorcido. Era ele, o Aquidabã ali deixado no fundo do mar de Angra.

E assim fomos, de batida em batida, tentando compreender em que parte do naufrágio estávamos, mas a baixa visibilidade tornava o mergulho impraticável. Persistentes, continuamos até alcançarmos o limite de segurança para dar início ao retorno para a embarcação que nos aguardava.

Não foi um mergulho como gostaria de ter feito, mas todo mergulho é um mergulho. Vale o momento, a experiência e o encontro com os amigos. Nesse dia e com extrema dificuldade, vimos algumas partes metálicas irreconhecíveis, e considero o local como sendo um mergulho arriscado em razão do tipo de fundo, ferro retorcido e baixa visibilidade, e todos prontos para “pegar” o mergulhador desavisado e inexperiente.

Além disso, as 112 mortes que ocorreram no local o tornam um ponto sombrio e que deve ser visitado com respeito.

Meus eternos agradecimentos ao grande amigo Reinaldo Moine, que sem dúvidas, é foi um dos melhores profissionais do mercado e que me ajudou a conhecer diversos locais de mergulho da região de Angra dos Reis, além de se tornar um grande amigo. Atualmente ele é comandante da Marinha Mercante.

Meus agradecimentos também ao marinheiro Anacleto Gomes, por toda a assistência sempre dada nas operações de mergulho e seu bom humor.

Meu retorno ao Aquidabã se deu muitos anos depois, mas isso é outra história.

 

Clécio e Reinaldo Moine retornando do Aquidabã – Foto: Arquivo pessoal

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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Veja também:

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Um dos principais navios da Marinha do Brasil sofre um final trágico em Angra dos Reis.

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Interessante história sobre um incidente pouco conhecido pelos moradores a cidade do Rio de Janeiro.

Aquidabã

Ficha técnica do naufrágio
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