Numa época remota, algo em torno da década de 80 e início dos anos 90, a falta de estrutura de mergulho acabava nos obrigando a realizar algumas ações consideradas totalmente “inseguras” nos dias de hoje. Inimaginável eu diria.
Como não haviam tantas operadoras de mergulho (ou até, não tinha mesmo dependendo do lugar), sempre era dado algum jeito para conhecer um determinado local e mergulhar, e assim foi durante um bom tempo, quando saíamos para mergulhar nas Ilhas Tijucas, um arquipélago localizado em frente à Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
As duas principais ilhas estão distantes entre 1.6 e 2Km da praia, sendo alcançadas facilmente através do Canal de Marapendi, com embarcações de pequeno porte.
Digo pequeno porte, desde que sejam lanchas com boa motorização, o que não aconteceu comigo e outros dois amigos num determinado final de semana. Nossa embarcação quebrou e o que já deveria ser um sinal de aviso, acabou sendo ignorado, como a grande maioria dos jovens fazem. Então, ignoramos e seguimos em frente, com a boa vontade de um outro amigo da marina, que ofereceu de nos levar até as ilhas para mergulhar.
Equipamentos colocados à bordo da pequena embarcação, que por sinal, era bem menor que a nossa, seguimos em frente pelo canal até a saída do quebra-mar. Havia algumas ondulações, vencemos com certa facilidade e seguimos em frente.
Após uns 10/15 minutos de navegação, chegamos à Ilha Pontuda, em meio a um mar “esquisito”, e digo isso, porque o céu resolveu fechar com nuvens bem densas e o mar ficou com uma aparência escura, nada bonito. Diria… até meio assustador.
Chegando ao local, a embarcação não parava quieta em meio as pequenas ondulações. Parecia que o mar estava chacoalhando, e nada parava no lugar. O Marcelo desceu para ancorar o barco e logo depois retorna dizendo que a visibilidade era mínima. Entramos na água pra verificar e de fato estava horrível.
Mas a previsão era boa, a água estava ótima durante toda a semana, mas logo hoje ?
Decidimos abortar e retornar para a marina, e se achávamos que estávamos com problemas com a visibilidade, esse era o menor deles, porque em questão de poucos tempo, entrou um vento sudoeste pesado, virando o mar com toda a força.

Retorno inesperado
Retornamos em marcha lenta por causa das ondulações maiores e já avistávamos as fortes ondas entrando no canal. O receio do retorno ao canal chegou à todos a bordo, porque não contávamos com uma mudança tão repentina das condições do mar, e entrar no Canal de Marapendi com ondas “bombando” bem na entrada, não fazia parte dos nossos planos. Na verdade, nenhum de nós havíamos visto esse tipo de condição.
Esperávamos a sequência de ondas e acelerávamos com tudo, mas as ondas enchiam com tamanha velocidade, que poderia fazer com que a embarcação capotasse, e seríamos jogados ao mar com todo o material na água, sem contar, é claro, com a possibilidade de alguém se machucar. Com isso, tínhamos que abortar e tentar novamente num momento mais propício.
Os minutos foram passando, e diante do vai e vem, começou a juntar gente no final do quebra-mar observando nosso “perrengue” para ingressar de volta ao canal. Foram 30 minutos tensos até que o mar nos permitiu entrar entre uma ondulação e outra, sendo possível alcançar a parte segura do canal. Foi um alívio para todos no barco e no quebra-mar !
Ficamos felizes, comemoramos e agradecemos por sair daquela situação de risco em segurança.
Seguimos em frente em direção a marina e nos deparamos com uma cena um tanto estranha… os bombeiros tentando localizar um veículo que havia caído no canal, pois segundo o motorista, ele havia perdido o controle ao fazer a curva.
Decidimos ajudar aos Bombeiros, mergulhando e realizando uma busca do veículo para eles. Acabamos encontrando o carro para os Bombeiros, fotografamos e no final, a história do motorista não era bem aquela e ele não se deu meu bem.
Mas isso é outra história contada aqui no Brasil Mergulho.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



