Depois do Bolsonaro afirmar em rede nacional que estaria realizando o afundamento de vários navios abandonados pelo Brasil para a criação recifes artificiais; a mídia literalmente caiu em cima falando sobre o assunto, inclusive, divulgando informações erradas, como sempre acontece quando assunto envolve mar e mergulho.
Isso acontece pela falta de conhecimento e pela falta de contato com profissionais da área para compreender melhor a questão.
Vamos falar um pouco mais sobre o assunto para compreender do que se trata, e se realmente o afundamento de navios para a criação de recifes artificiais, é realmente tão negativo assim.
Alguns países, como o Canadá, Estados Unidos, Portugal e Austrália, afundaram diversos navios comerciais e militares por razões que vão além da questão ecológica / econômica dos recifes artificiais e atividades recreativas. Além de um aspecto ecológico, também é uma estratégia militar.
Por exemplo, o afundamento de navios militares para se tornar recifes artificiais, ajudam a manter “viva” a memória da embarcação. Geralmente os militares possuem grande ligação emocional com essas embarcações e, sendo que em muitos casos, essas embarcações chegaram até a participar da 2ª Guerra Mundial, e colocar um navio desses no fundo do oceano, é de certa forma, manter a história viva da embarcação ainda servindo ao país.
Muitas vezes o melhor custo benefício para se desfazer de um navio, é transportá-lo até os chamados “cemitérios de navios”, normalmente localizados em países mais pobres, como a Índia e países da África, mas de alguma forma, outros países acabam tendo acesso a parte estrutural da tecnologia naval militar do país de origem da embarcação, sendo um aspecto indesejável pelos militares.
Mas voltando ao assunto do Bolsonaro, o ex-presidente mencionou afundar um naufrágio em Fernando de Noronha, o que deixou os ambientalistas em pânico na época, e talvez, até tenha sido o principal motivo para deixar a imprensa exaltada.
A maior parte rasa da ilha principal é um parque nacional e que deve ser mantido em seu estado natural. A única parte rasa onde se poderia afundar alguma coisa, seria justamente no interior da Área de Proteção Ambiental, uma APA, que vai do Porto até a Ponta da Sapata, local onde inclusive, já se encontra o naufrágio da Corveta Ipiranga V17 e o navio comercial Eleni Stathatos próximo ao porto. Na visão dos ambientalistas e biólogos, Noronha não precisaria de outro naufrágio.
De todo modo, o afundamento de navios para a criação de recifes artificiais tem vários pontos positivos e, que a meu ver, são muito mais positivos que negativos.

O que são Naufrágios Artificiais ?
Como o próprio nome diz, são embarcações afundadas de forma proposital, para se estabelecerem no leito marinho.
Esse procedimento já foi realizado em diversos países do mundo, e de certa forma, é errado imaginar que esses afundamentos só ocorrem unicamente em razão do turismo de mergulho, na verdade, um afundamento depende de uma série de fatores e necessidades.
Quais os benefícios desses afundamentos ?
O afundamento de embarcações geram vários benefícios, não só para o turismo, quanto para o meio ambiente em geral. Por exemplo, quando um navio é desativado, é preciso conseguir uma destinação para as partes metálicas.
Hoje, por exemplo, temos um grande problema com grandes navios parados no Porto de Santos, e o afundamento deles no local onde se encontram, liberaria mais espaços no porto e eliminaria a possibilidade de uma catástrofe ambiental que atualmente existe em potencial. Um navio parado que venha a naufragar, vai poluir muito e terá muito mais chances de causar um desastre natural, caso venha afundar repentinamente. Devemos lembrar do caso do navio Professor Besnard e de outros 3 parados em Santos. Se um desses navios vier a afundar e intervir no tráfego de navios do Porto de Santos, existe uma estimativa de um prejuízo diário na ordem de RS 40 milhões por dia, fora o dano ambiental nas praias das cidades de Santos e Guarujá.
Em todo o Brasil, sabemos que existem centenas de navios abandonados, e uma embarcação dessas, pode de uma hora para outra afundar pela falta de manutenção. O próprio navio Professor Besnard, precisou de uma intervenção alguns anos atrás, para a remoção da água que penetra no navio 24 horas por dia, e na época, o IBAMA teria gasto R$ 120.000 nesse processo. Um dinheiro da população que poderia estar sendo empregado na saúde e na educação do povo.
Quando afundamos um navio, automaticamente cria-se um obstáculo para as grandes redes de arrastos utilizada pelos pescadores. Essas redes são verdadeiras destruidoras do ambiente marinho, e como o próprio nome diz, elas saem arrastando tudo no leito marinho, causando um grande dano para a vida marinha e destruição de tudo que a rede “vê” pela frente.
Caso os pescadores passem uma grande rede em uma área onde se encontra um naufrágio artificial, essa rede será perdida e ficará retida no naufrágio. Cientes dessa possibilidade, os pescadores não irão utilizar as redes de arrasto para pescar na área em questão, por exemplo.
Com o naufrágio artificial, também acaba-se com a possibilidade de estocagem de drogas do narcotráfico, como ocorre por exemplo, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Há muito tempo, o tráfico utiliza vários navios que se encontram parados na Baía de Guanabara, para esse tipo de atividade, pois como são navios muito grandes, fica complicado fiscalizar todas elas o tempo todo pelas forças policiais. Imagine que uma carga de drogas seja armazenada em um navio com 200m de comprimento e que o local está abandonado e totalmente escuro. Fica difícil encontrar uma carga num navio desses.
Um naufrágio artificial também pode permitir o reconhecimento precoce de possíveis espécies invasoras nos recifes naturais, facilitando respostas efetivas para as ações de controle de pragas. Ele também cria polos de vida marinha pela agregação vida, que com o passar dos tempos, se torna um imenso ambiente marinho onde encontramos espécies variadas de seres.
Ele também tira a “pressão” causada pelo turismo de mergulho em recifes naturais. Alguns destinos, como Eilat, no Mar Vermelho, que recebe uma quantidade de mergulhadores muito acima do limite seguro para os recifes marinhos, a estratégia para tirar essa visitação exagerada foi o afundamento de embarcações não mais utilizadas. A estratégia funcionou bem por lá. Também podemos citar a Flórida, que seguiu essa mesma linha, tendo benefícios nesse sentido, chegando a afundar torres de petróleo, armamentos militares e até vagões de metrô.
Outro ponto importante, é que um naufrágio artificial é um vetor para espécies exóticas, e algumas espécies demonstram maior facilidade em se estabelecerem em ambientes artificiais como cascos de navios, plataformas de petróleo e outros. Isso pode contribuir na propagação para áreas onde elas ainda não ocorram.
Normalmente os mergulhadores são mais atraídos pelos naufrágios com passado histórico e relevância, e as dimensões do navio a se tornar um naufrágio artificial devem ser compatíveis com o tipo mergulho. Naufrágios de pequeno porte são percorridos pelos mergulhadores muito rapidamente e não é uma boa estratégia, porque ninguém quer mergulhar e utilizar somente a metade da capacidade do cilindro ou ter que ficar dando voltas até o consumo total do ar.
Se a embarcação a qual se pretende afundar possuir pequenas dimensões, é mais interessante afundá-la num complexo de naufrágios, facilitando a visita do mergulhador, para que possa transitar entre uma estrutura e outra. Um bom exemplo disso, são os naufrágios dos rebocadores de Recife, com acesso fácil, baixa profundidade e pouca distância da costa.

Novos pontos de mergulho
Como citei anteriormente, além da “pressão” da visitação dos mergulhadores nos recifes, um naufrágio novo se torna um novo ponto de mergulho.
Muitos mergulhadores amam conhecer novos naufrágios e, havendo um novo ponto de mergulho, teremos operadoras levando os mergulhadores até lá, e para isso, será preciso ter equipes de profissionais, normalmente compostas por uma tripulação, pessoal do administrativo da empresa e o staff, responsável pela execução da operação de mergulho no naufrágio.
Além disso, também ganham:
- A marina com o aluguel do espaço da embarcação;
- Os restaurantes da cidade com os mergulhadores almoçando e/ou jantando por lá;
- O posto de combustíveis, com o combustível do barco e dos veículos dos mergulhadores;
- Os hotéis lucram com a venda das diárias;
- Companhias aéreas, táxis e ônibus, ganham com o transporte;
- Empresas de pedágio recebem pelo trânsito nas rodovias;
- Mercado local ganha com a comercialização de produtos comestíveis e artesanato;
- O governo ganha com impostos pagos;
- Os pesquisadores ganham com um local para análises e estudos in loco. Sucessão biológica, estudos de assoreamento e correntes, além do amadurecimento do ecossistema local, reprodução de espécies e contribuição para a colonização de novos recifes adjacentes para as ilhas.
Aspectos negativos
Como tudo na vida, também há pontos negativos.
Para afundar um navio de forma ecologicamente correta, é pré-requisito que haja uma limpeza apropriada, o descarte de materiais tóxicos e a remoção da pintura. Dependendo do tamanho do navio, o processo pode ser bastante trabalhoso e principalmente caro, normalmente requerendo uma iniciativa de um programa de afundamento, que envolva um extenso planejamento e parceria com instituições privadas.
Outro ponto a ser levado em consideração, é o dano na fauna do leito marinho, em razão do esmagamento causado pelo impacto físico da estrutura do naufrágio. O afundamento deve ocorrer em fundo de substrato não consolidado, de areia ou lama.
Alguns pesquisadores chegam a afirmar que um recife artificial não “cria” vida, ele apenas, atrai a fauna de recifes naturais ao seu redor e concentra essa fauna. Normalmente peixes grandes, meros e animais do tipo são os grandes residentes do local, o que facilitaria a captura desses animais por pescadores e praticantes da pesca submarina.

Complexidade dos afundamentos
Quando se pretende realizar o afundamento em uma Unidade de Conservação (UC) é sempre mais complicado. Em todos os casos é preciso ter um Engenheiro Ambiental para fazer uma avaliação geral do projeto, contato com as autoridades municipais, estaduais e federais (IBAMA, Marinha do Brasil, Ministério do Turismo).
O município (Prefeitura / Secretaria de Turismo) também precisa receber o navio e ter um projeto ambiental, provando que o afundamento é bom para o meio ambiente, e na maioria das vezes, esse processo acaba tendo uma intervenção com alguma ordem de cima pra baixo, de Brasília para a Marinha e governo estadual, obrigando-os a realizar a execução do projeto em si.
Infelizmente o Brasil possui centenas de navios parados podendo causar enormes danos ambientais, os órgãos públicos parecem não da atenção ao problema e só atuam por força maior ou quando algum tipo de catástrofe ocorre. Enquanto muitos países dão a devida atenção ao problema, se livrando do problema e criando novos pontos turísticos, ampliação da fauna marinha e liberando espaço nos porto, por aqui, a coisa toda anda a passos largos, com centenas de pessoas criando dificuldades ao invés de trabalhar em prol de um benefício para todos.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



