Galeão da Ilha Rasa e uma possível identificação ?

Há anos, o naufrágio do Galeão da Ilha Rasa é um mistério para os pesquisadores de naufrágios e mergulhadores que gostam do assunto, mas agora surgiu uma nova possibilidade quanto a identificação do naufrágio.

A Ilha Rasa está localizada bem em frente a cidade do Rio de Janeiro, possuindo belíssimos mergulhos, vida marinha abundante e o maravilhoso naufrágio do Buenos Aires, mas bem próximo dessa ilha, há uma área no meio do nada denominada pelos mergulhadores como “Galeão da Ilha Rasa”, que são partes de um naufrágio espalhadas por uma grande área, distante apenas 300m da própria Ilha Rasa em si.

Em algumas ocasiões, chegávamos a descer no dito “galeão” e nadar em direção ao naufrágio Buenos Aires, contemplando várias partes dos naufrágios.

Ao longo dos anos constatamos que muito provavelmente, o Galeão da Ilha Rasa seja o amontoado de pelo menos três naufrágios diferentes e de diferentes épocas, e explico.

Após diversos mergulhos naquela localidade, onde a profundidade gira em torno dos 35 metros, foram encontradas muitas partes metálicas em uma área muito grande, ultrapassando os limites de um navio antigo qualquer. Além disso, alguns aspectos demonstram a diferenciação das datas.

No passado, um mergulhador encontrou duas moedas de ouro, que após um longo estudo, ficou constatado terem sido cunhadas pela Casa da Moeda do Brasil em 1824. Naquela época, haviam quatro “casas da moeda” no país, sendo uma delas, no Rio de Janeiro.

Posteriormente, munições de armamentos do século 20 (1901 – 2000) foram encontradas entre as partes do naufrágio, surgindo a hipótese de que também haveria um naufrágio deste século. Alguns chegaram até a cogitar, que poderiam ser munições utilizadas na época da ditatura, pois sabe-se que muitos presos foram jogados ao mar.

O tempo passou, e um mergulhador encontrou uma garrafa inteira de vidro com o logotipo do fabricante Batty & Company, de Londres. Essa empresa nasceu no ano de 1800 e durante os anos de 1840 e 1850, a empresa utilizava a nomenclatura “Batty & Co”, demonstrando que a garrafa encontrada teria sido fabricada nesta década.

Sendo assim, temos três diferentes aspetos de épocas totalmente diferentes. Moedas de 1824, uma garrafa fabricada entre 1840 e 1850 e munições do século 20, abrindo a possibilidade para três acontecimentos naquele local.

 

Pesquisando sobre naufrágios e um encontro

A busca por informações sobre naufrágios requer bastante tempo, pois o acesso nem sempre é fácil, e na maioria das vezes, muito lento, em razão da base de dados dos antigos jornais ser muito ampla, mas durante uma madrugada recente, me deparei com a informação de um naufrágio bem interessante, o Villa Flôr.

Pesquisando no antigo “Jornal de Recife”, do dia 14 de agosto de 1889, me deparei com a notícia deste naufrágio relatando a seguinte informação:

“As 7 horas da manhã do 5 do corrente, naufragou à meia milha a leste da Ilha Raza, o patacho nacional Villa Flôr, procedente de Itajahy, com carregamento de vários gêneros de madeira. O navio, que era de 139 toneladas costumava ser consignado à firma Queiroz, Moreira & C. da praça do Rio de Janeiro.

A tripulação, que se compunha de 9 pessoas, foi salva”

 

Fonte: Jornal de Recife

 

Obviamente, não podemos afirmar que um dos naufrágios na área do Galeão da Ilha Rasa, seja o Villa Flôr, contudo, existe uma grande possibilidade dele ser parte desse amontoado de peças metálicas.

Seria preciso uma pesquisa com muitos mergulhos naquela área, na tentativa de colher mais detalhes sobre o que há por lá, mas o grande o problema, é que a área é desabrigada e sob fortes correntes, por estar justamente na frente da saída da Baía de Guanabara.

Pra piorar, as operadoras de mergulho do Rio de Janeiro, não procuram levar os clientes nesses pontos, mesmo sendo mergulhadores técnicos, realizando apenas o trivial básico.

Tenho me deparado com alguns mergulhadores mais novatos que desconhecem muita coisa sobre os pontos de mergulho no Rio de Janeiro, locais antes famosos, estão caindo no esquecimento, o que é uma grande pena.

Agora é tentar encontrar mais informações sobre o naufrágio do Villa Flôr, e quem sabe, confirmar a identificação do que já foi encontrado, mas fato é, que muito provavelmente o Villa Flôr seja um deles.

 

Localização do naufrágio Buenos Aires e do “Galeão da Ilha Rasa” – Foto: Google Earth

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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