A Cobra Sub foi uma das primeiras empresas em equipamentos de mergulho no Brasil, e sem dúvidas, uma grande pioneira no assunto.

Fundada pelo italiano Américo Santarelli, a empresa localizada no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, foi líder no fornecimento em equipamentos para os mergulhadores brasileiros, e os cilindros de mergulho foi durante um bom tempo, um dos produtos comercializados por eles e que permitiu aos mergulhadores conhecerem os pontos de mergulho pelo país.

Hoje encontramos no mercado os modernos e já tradicionais cilindros fabricados com liga de alumínio, sendo a maioria com pressão de trabalho de 3.000 PSI, ou até mesmo os de composite, como é o caso da Worthington, ambos importados, mas nem tudo são flores. Antigamente o que mais se encontrava por aqui, eram os cilindros de aço cromo-molibdênio da Cobra Sub, que eram fabricados pela Mat-Incêndio e pouco se via os cilindro estrangeiros, em razão das dificuldades nas importações.

Cilindro Cobra Sub

Os cilindros da Cobra Sub eram relativamente pesados, suportavam apenas 2.250 PSI e usavam a torneira com reserva. Para descer com um cilindro desses, era necessário menos lastro, não usávamos manômetro e tão pouco colete equilibrados, pois naquela época o Back Pack era um acessório comum entre os mergulhadores.

Quem não tinha recursos para adquirir um desses cilindros, algumas vezes acaba usando os cilindros apelidados de “Coca-Cola“, de origem suspeita, que surgiam no mercado e eram adaptados para mergulho.

No caso dos mergulhos fundos, a Cobra-Sub também comercializava duplas destes cilindros usando um manifold com uma saída yoke apenas, permitindo conectar somente um regulador, sendo o US Gold da Cobra Sub ou o Air Flux da Air Sub, sendo os mais tradicionais por aqui.

Esses reguladores eram de pistão, fornecendo um fluxo sem o controle que temos hoje com os novos reguladores, e a respiração era bem mais dificultada.

Loucuras profundas

No passado os cursos de mergulho eram praticamente um treinamento militar, contendo treinamentos um tanto estranhos, como por exemplo, respirar pela torneira, caminhar certa quantidade de metros com o cilindro nas costas totalmente equipado, e até com narguilé de mergulho comercial, como foi o meu caso na plataforma G40 do Tatalo, na Urca. Coisas impensáveis nos dias atuais.

A pessoa saía do curso básico com um conhecimento aprofundado sobre mergulho e tendo como limite de segurança os 50m de profundidade, e acreditávamos que poderíamos sempre ir até essa profundidade com segurança, algo impensável atualmente.

Numa ocasião fui com um grupo de mergulhadores até a ilha de Âncora, em Búzios-RJ, realizar um mergulho profundo no paredão de fora da ilha.

Mergulhadores usando cilindros duplos da Cobra-Sub, com apenas um regulador US Gold, profundímetro de coluna d’água, tabela descompressiva da marinha americana em mãos com relógio G-Shock da Casio.

Cilindros da Cobra Sub

Nesse dia alcançamos os 40/45m de profundidade usando ar comprimido e realizando a descompressão com base na antiga tabela. Resumindo, tudo para dar errado. Só tínhamos certeza quanto à profundidade alcançada, pois um dos mergulhadores estava usando um profundímetro a óleo, que em tese, tinha mais precisão na medição.

Apesar do frio intenso e dessa “antiguidade” toda, o mergulho foi espetacular, até porque durante a descompressão a vida marinha resolveu dar as caras chegando próximo de nós, como um tubarão curioso com seus 2m de comprimento.

Colaboração: Flávio Júlio Gomes e Miguel Lopes

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.