Nestor Magalhães pelo Mundo: Scapa Flow

Estava em Stromness, delicada cidadezinha de pedras com o seu porto colorido, encravada nas margens da baía de Scapa Flow, Ilhas Orkney. Lugar encantador e dramático ao mesmo tempo, do qual já contei várias histórias aqui neste espaço.

Estava fazendo um liveaboard no Invincible do capitão Ian Trumpess. Tínhamos encerrado a semana com todos objetivos alcançados: havia mergulhado nos naufrágios dos encouraçados SMS Markgraf, König e Kronprinz Wilhelm, magníficas embarcações com 28.00 t de deslocamento. Também explorara os destroços dos elegantes cruzadores SMS Cöln, Dresden, Brummer e Karlsruhe, todos eles afundados pelos próprios alemães em 1919 e dormitando nas profundezas frias de Scapa.

Contudo havia um grand finale. Tinha sido prometido pelo capitão Ian: o encouraçado SMS Bayern de 180m de comprimento, com quatro torres duplas de 380mm e deslocando 28.500 T.

No briefing, protestei. Eu sabia que esta embarcação havia sido resgatada do fundo do mar em 1934.

Que naufrágio seria ?

Então o capitão explicou com um sotaque escocês terrível. Difícil de entender, mas aos poucos fui me inteirando da história: o navio afundou de popa em um local da baía com 36m de profundidade. Devido ao peso colossal da blindagem (só o seu passadiço tinha uma armadura de 350mm de aço), girou e foi pousar emborcado no assoalho marinho. Ficou assim por mais de 14 anos.

Durante o resgate, o Bayern subiu à superfície lentamente, mas devido a um problema técnico, escapou e retornou as profundezas. Reerguido algum tempo depois, deixou cair as suas quatro torres duplas de 380 mm, cada uma pesando 600 T. Uma destas torres seria o naufrágio que iriamos explorar hoje.

Dado o esclarecimento, o capitão Ian olhou triunfante para mim e falou:

– Liki liki, Néster !

Era um vício de linguagem que ele tinha. Soltava sempre este tal de “liki liki” quando queria dar ênfase a determinado conceito. Quanto ao meu nome, desisti de corrigir, era sempre Néster, em toda a parte, De Guadalcanal a Creta, De Truk a Narvik. Tive que rir.

O vento carregado de maresia nos fustigava, mas eu estava fascinado, abobalhado com a possibilidade de ver os canhões. O Invincible manobrou em círculo perto da boia que assinalava o naufrágio. Os mergulhadores se levantaram dos bancos.

– Go, go, Néster ! Gritou a Fiona, esposa do capitão e única tripulante do barco.

Saltei na água.

Uma pancada forte pois a borda livre do Invincible era muito alta. Roupa seca, lastro com 12 kg e mais o resto do equipamento, contribuíram para o choque que alagou a máscara. Felizmente as ondas eram pequenas e a corrente nula.

Os outros mergulhadores, todos técnicos, já haviam submergido pelo cabo guia. Cada um por si. Desci lentamente. Veio me receber uma enorme medusa translúcida. Cada vez mais fundo. Água escura, fria. Já tinha chegado nos 25m, profundidade que o capitão havia dito que alcançaríamos os destroços. Nada, nem sinal do naufrágio.

Fui atingir a torre a 38m. Uma parede marrom, uma confusão de cabos, tubos, fios e… caranguejos. Na sombra que deforma as proporções e anula as distâncias, a torre de 600 T parecia imensa. Outra surpresa: o fundo era de lama e não areia, a visibilidade ruim. Procurei os canhões. Droga, não achei.

Os dois deviam estar sepultados neste fundo macio e gosmento, uma pena.

Boa parte da barbeta blindada estava enterrada e engastada nela, uma estrutura que parecia ser um rolamento gigantesco. Peça destinada a facilitar o giro da torre. A temperatura estava “amena”, 11°C e o manômetro indicava o final do mergulho.

Antes de subir, conferi com a lanterna um buraco no miolo da torre. Lá dentro reinava uma desordem inextricável de ferros, emaranhados de cabos, anêmonas brancas e conchas mortas. Enroscos perigosos, porém com uma penetração fácil, mas era só eu ali. Lembrei então de Cousteau que tinha dito certa vez que um mergulhador solitário está em má companhia. Superfície.

Liki liki, capitão Ian Trumpess, este mergulho foi memorável. Que história !

 

Galeria de Imagens

Nestor Magalhães

Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.

Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.

Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.

Clique aqui e conheça mais sobre as viagens do Nestor ao redor do mundo em busca de histórias e naufrágios de guerra.

Publicidade

Veja também:

O Moinho e o Naufrágio SS Cotovia

Por causa de uma arrumação de uma sala em um antigo moinho, um mergulhador brasileiro encontra um raro documento de um antigo naufrágio.

Nestor Magalhães pelo Mundo: Palau

Nestor Magalhães conta uma de suas aventuras nos naufrágios de Palau.

Nestor Magalhães pelo Mundo: Guam – Micronésia

Leia sobre o mergulho em um hidroavião japonês ao sul de Apra Harbor, onde a história permanece preservada até os dias atuais.

Nestor Magalhães pelo Mundo: Guadalcanal – Ilhas Salomão

Relata seu mergulho na região de Guadacanal, nas Ilhas Salomão, onde pôde conhecer de perto o submarino japonês I-1.
Saiba quando publicamos

Compartilhe

Publicidade