Era 2007 e estava realizando um treinamento com a configuração de sidemount no mar, utilizando dois cilindros S80.

Inicialmente eu e meu dupla resolvemos descer até os 40m para ver os restos de um naufrágio. Tudo transcorreu bem e iniciamos a subida lentamente.

Chegando aos 22m de profundidade minha dupla sinalizou que iria retornar para a embarcação em razão da diminuição do gás em seu cilindro simples de aço. Perguntei se desejava que eu fosse, e ele informou que não era necessário, e segui assim, num mergulho solo, coisa normal no mergulho de sidemount e ficando na faixa dos 18m, faltando alguns minutos para entrar em deco.

Nesse tempo recordei de um amontoado de pedras que permitem um mergulho sob teto, formando uma caverna marinha e que normalmente os mergulhadores adentravam até certo ponto com intuito de tentar encontrar peças caídas do naufrágio.

Naquele momento, ciente de que me encontrava com a configuração de sidemount, ou seja, com os cilindros nas laterais e não nas costas, sabia que poderia adentrar ainda mais na pequena caverna e tentar encontrar alguma peça do naufrágio perdida, o que é muito comum por aqui. Como em certo momento há uma restrição que limita a passagem de mergulhadores com cilindro S80 ou dupla nas costas, usando o sidemount conseguiria passar por ela e ir mais para o interior daquele ambiente.

Entrando na caverna e o início do problema

Ao chegar à entrada da pequena caverna, amarrei a carretilha em uma pedra e segui em direção ao interior da caverna marinha, amarrando a carretilha de tempos em tempos durante o trajeto e seguindo o protocolo de mergulho em caverna.

Continuei adentrando e ciente que retornaria com visibilidade zero, em razão do tipo de fundo local, o qual já estava acostumado.

Após alguns bons metros, alcancei um determinado ponto que não permitia mais a penetração. Decidi retornar e seguir direto para a descompressão de 2min requerida naquele momento.

O início do retorno foi tranquilo até que em dado momento em meio à visibilidade zero, bati contra uma grande pedra. Naquele instante verifiquei que o cabo seguia por baixo dessa pedra. Puxei o cabo para os lados, e nada…   Movimentei as mãos para cada lado e só sentia uma imensa pedra à frente. Alguma coisa havia ocorrido com o cabo para estar passando por baixo daquela pedra.

Tateando o local, não conseguia compreender o que havia ocorrido, e pensava: O cabo correu ?   Caiu alguma pedra ?

Estava dentro de uma caverna marinha sem poder subir e com descompressão para ser feita.

Naquele momento, percebi que algo aconteceu e que o cabo guia não estava no lugar correto como havia deixado, e como um raio, veio o choque da adrenalina no corpo. Uma sensação terrível de desespero. Algo como uma incapacidade de solucionar o problema.

Uma das piores sensações que já tive.

É como uma anestesia que vai interferindo de forma exponencial em nosso corpo e que se o mergulhador não conseguir dominar esse efeito, ele pode errar e morrer. Nesse exato momento me veio à cabeça: Treinei muito para estar aqui… calma… pare e pense antes de agir…”

Respirei calmamente, olhei os dois manômetros e percebi que tinha 90 BAR em cada cilindro… tinha bastante gás ainda. Passei a respirar mais lentamente e a adrenalina começou a baixar e, lentamente comecei a pensar o que seria necessário fazer para sair daquele local, até porque ninguém sabia onde me encontrava. Lembro que passei a respirar muito mais lento e a prender mais o gás. Isso foi automático e talvez seja instinto de sobrevivência.

A primeira coisa que me veio à cabeça era fazer uma busca pela saída, pois sabia que ela estava próxima dali, então, precisava seguir o protocolo de mergulho em caverna, fixando bem a carretilha do cabo principal no local e amarrei uma spool nela para poder iniciar uma busca rápida para encontrar a saída em meio à visibilidade zero.

Enquanto amarrava a spool na carretilha principal, me recordei de uma pequena abertura em numa parte mais alta à direita do conduto e que talvez fosse uma alternativa mais rápida de saída daquela situação. Usando a spool para não perder a referência, segui meu instinto e encontrei depois de algum tempo a pequena abertura, com o aumento de luz solar. A abertura era bem estreita, e alterando a configuração para no-mount, consegui sair por ela raspando minha roupa seca pelas pedras. Bem apertado mas consegui !   Consegui me livrar daquela situação estressante.

Poderia sim, ter tentado sair pela entrada principal, mas me encontrava com visibilidade zero em meio ao fundo lodoso e demoraria mais tempo para sair do local, e quando você se vê numa situação arriscada como esta, o que você quer é sair logo dali o mais rápido possível.

Verifiquei os manômetros não gastei praticamente nada de gás, e incomodado com o que havia ocorrido, fui pelo lado de fora até a entrada dessa caverna marinha para tentar compreender o que houve com o cabo, que se encontrava ainda amarrado do lado de fora da caverna.

Chegando ao local encontrei minha carretilha amarrada como antes, chequei novamente o cabo e decidi entrar alguns metros. Naquele momento, a visibilidade melhorou alguns centímetros, permitindo visualizar e perceber que um dos locais de amarração do cabo estava totalmente desintegrado. Ou seja, fiz uma amarração no que seria uma pedra, quando na verdade, era um calcário que se desintegrou com a tensão mais forte do cabo em algum momento.

Como o local de amarração se desintegrou, o cabo andou (correu) para o lado, indo para debaixo de uma das rochas, fazendo um ziguezague. Isso mudou a percepção de direção, pois o cabo seguia em uma direção e por baixo da rocha, mudava para uma direção contrária, ficando impossível compreender a direção correta e o motivo do cabo estar seguindo para um lado totalmente diferente.

No final consegui recuperar a carretilha e segui para os 12min de descompressão que me aguardavam.

Aprendizado

Os problemas iniciaram antes do mergulho, pois não houve um planejamento. Pra piorar, o mergulho solo como muitos mergulhadores técnicos e de caverna fazem, teria dificultado as buscas, caso ficasse preso na caverna.

Quanto à amarração da carretilha em um dos pontos que acabou se desfazendo com a força da tensão do cabo, foi uma grande falha minha. Toda amarração deve ser muito bem checada e verificada novamente, pois não podemos permitir que o cabo jamais se solte do ponto de amarração. Quando amarrei naquele local, acreditei estar fazendo uma amarração em uma pedra, e não era o caso. Era uma caverna pequena, quando comparada as cavernas de água doce que seguem por centenas ou milhares de metros, mas ela também pode matar.

Quando retornei para o barco, só pensava no que havia passado, analisando todos os aspectos do mergulho e vendo onde errei. Foi pra mim um dia de prova, pois senti na pele o que é a desorientação na caverna, a importância da calma, do raciocínio e do treinamento, chegando à conclusão de que o mergulho em caverna realmente não é para qualquer um. A pessoa precisa além da calma e treinamento, muita disciplina.

Atenção na amarração em caverna é fundamental – Foto: Clécio Mayrink

Esse dia está marcado em minha mente, com o registro em imagens daquele dia mergulho na cabeça, e quando entro em uma caverna, faço cada procedimento de forma mais lenta e com atenção redobrada.

Autor

JW tem 48 anos de idade, é engenheiro e residente na América do Norte. É mergulhador técnico e de caverna com anos de experiência.

Por:

Anônimo

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