Mergulho com Cilindros Duplos ou Sidemount ?

Recentemente um amigo me questionou sobre as configurações para mergulho técnico. O que poderia recomendar pra ele e coisas do tipo.

Talvez a dúvida principal era mergulhar com cilindro duplo ou utilizar a configuração sidemount.

Ele deseja ingressar no mergulho técnico, mas tinha algumas dúvidas entre as duas configurações de equipamentos, além da técnica de cada uma delas em si.

havia também, a preocupação quanto aos equipamentos necessários, sendo importante o mergulhador conhecer as diferenças para que ele ingresse na especialidade desejada e sem acabar comprando algum equipamento errado ou incondizente. Por exemplo, uma asa de sidemount é diferente de uma asa para mergulho com cilindros duplos.

Vejamos alguns aspectos das duas configurações, que podem mudar a percepção do mergulhador sobre cada uma delas.

 

As configurações

Tenho a preferência de mergulhar com cilindros duplos, mas ao longo do tempo, percebi que esse tipo de configuração tem alguns aspectos positivos, mas os negativos devem ser levados bem em consideração, pois são muito relevantes.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Configuração Asa – Cilindro Duplo

Os cilindros são interligados através do Manifold, uma válvula metálica conectada em ambos os cilindros com duas saídas de gás.

Há um registro para abrir e fechar a liberação do gás de cada cilindro e um registro divisor, permitindo ao mergulhador isolar a interligação entre os cilindros. No caso de algum vazamento, o mergulhador poderá acionar esse registro para que o vazamento ocorra somente com o cilindro envolvido no problema, evitando que o gás de ambos os cilindros seja liberado.

No mergulho com esta configuração, o mergulhador utiliza um regulador com uma mangueira longa (2.10m), que devidamente fixada junto ao corpo do mergulhador, pode ser usada para o compartilhamento de gás com outro mergulhador. A mangueira é longa justamente para facilitar o compartilhamento de gás. Em uma caverna com conduto restrito e baixa visibilidade, por exemplo, quem recebe o gás vai à frente e o outro mergulhador atrás segurando na perna do outro mergulhador, mantendo “toque-contato”, uma forma de comunicar e dar alguns sinais através de pequenos apertos.

O segundo regulador do sistema é fixado ao pescoço através da gargantilha (elástico), sendo um regulador reserva e que poderá ser utilizado caso ocorra algum problema com o regulador primário ou enquanto a doação de gás estiver ocorrendo através do regulador primário ao dupla sem gás.

Para manter o equilíbrio do mergulhador embaixo d’água, o colete asa é o responsável por isso. Ele é fixado na dupla de cilindros através do encaixe em dois parafusos em inox e, mantido pressionado através do backplate, que serve de apoio para as costas do mergulhador.

O backplate também tem a função de lastro, pois normalmente ele é fabricado em inox e pesa entre 2 e 3Kg, contribuindo para o lastreamento negativo do mergulhador. Isso é muito útil quando se está utilizando a roupa seca, que normalmente deixa o mergulhador muito positivo. Há no mercado backplates em alumínio e fibra de carbono, com peso muito reduzido, e são mais utilizados por mergulhadores que só frequentam ambientes com água doce, onde a densidade da água é menor, e consequentemente, deixando o mergulhador muito menos positivo em relação a flutuabilidade.

Na minha opinião, esse tipo de configuração deixa o mergulhador bem estável e com sua parte frontal livre de obstáculos, pois os cilindros são transportados nas costas durante o mergulho. Os cilindros stage são transportados mais facilmente e o acesso é melhor.

Mas como tudo não são flores, os cilindros duplos possuem alguns aspectos negativos que muitas vezes, até dificultam ou inviabilizam o mergulho.

A maioria das operadoras de mergulho não possui cilindros duplos para aluguel. As melhores “duplas” de cilindros, são formadas com cilindros de aço como-molibdênio, onde em muitos casos, possuem uma capacidade maior em armazenamento de gás, porém, são mais pesados, raros de serem encontrados e mais caros que os tradicionais cilindros de alumínio que encontramos nas operações de mergulho.

Obviamente, há duplas de cilindros de mergulho em alumínio, e como não são tão pesados como os cilindros de aço, isso é uma desvantagem considerável e muda a estabilidade do mergulhador. Particularmente não gosto de duplas de alumínio.

Hoje, dificilmente você encontra cilindros novos de aço para comprar no mercado brasileiro, pois como o custo é mais elevado e o número de vendas é baixo, as distribuidoras não importam esse equipamento e não tem interesse na comercialização.

Outro aspecto negativo, é que transportar cilindros duplos é literalmente um transtorno, pois são bem mais pesados que os cilindros simples, chegando a ser um obstáculo para algumas pessoas, principalmente para quem tem dores na coluna, baixa estatura e/ou pouca força muscular.

Se a pessoa não tem dores, fatalmente um dia ela terá, se usar cilindros duplos por um bom tempo, e que pode trazer consequências mais sérias em alguns casos, como uma Hérnia Inguinal, por exemplo, que foi o meu caso.

Resumindo, acho o mergulho com cilindros duplos mais confortável, mas se você não tiver sua própria “dupla”, terá que alugar, o que pode ser um problema, além dos transtornos no transporte e espaço nas embarcações.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Configuração Sidemount

A configuração de sidemount surgiu por causa do mergulho em caverna, e ao longo do tempo, os mergulhadores mais antigos perceberam que a possibilidade de mergulhar com uma configuração que permitisse descer usando dois cilindros comuns sem o tradicional formato de cilindros duplos nas costas, era um grande benefício.

Ainda na década de 90, conversando com um amigo, notamos o que os gringos estavam fazendo e demos os primeiros passos nesse tipo de configuração (Leia o artigo aqui), e logo de cara também vimos os benefícios.

Felizmente a técnica do mergulho em sidemount avançou e os equipamentos também, e atualmente é possível mergulhar sem gambiarras, como fazíamos no passado.

No sidemount utilizamos um colete do tipo asa específico para esse tipo de mergulho. Ele permite ao mergulhador utilizar dois cilindros que ficam rentes e ajustados ao corpo do mergulhador, mais propriamente dito, nas laterais, através da fixação de mosquetões e elásticos.

Os cilindros não são interligados como na configuração de cilindros duplos. São independentes e são utilizados dois manômetros independentes juntamente com dois reguladores, onde o mergulhador vai revezando o uso e consumo durante o mergulho.

As mangueiras dos reguladores possuem um comprimento específico, e talvez, a grande maioria use pelo menos uma das mangueiras como sendo do tipo longa, para o compartilhamento de gás. Isso é ensinado nos cursos atualmente e foi emplacada na época por “brasileiro” querendo vender mais mangueiras, e a coisa pegou não só no Brasil como no exterior. Configuração cada um tem a sua, mas continuo seguindo os que os gringos “raiz” usam… duas mangueiras curtas. Conheça os motivos aqui.

Por utilizar cilindros independentes, você pode viajar para qualquer lugar do mundo e utilizar esse tipo de configuração, pois você precisa de dois cilindros, mas não dois cilindros conectados como os duplos, o que facilita muito a vida.

Em termos de transporte, obviamente, é muito mais fácil transportar um cilindro de cada vez para o ponto de mergulho, do que uma dupla.

Até mesmo antes de entrar na água, você não precisa levantar do banco da embarcação com tudo montado. Você pode entrar na água e o divemaster passa um cilindro por vez pra você, aliviando o esforço que a sua coluna teria se estivesse utilizando cilindros duplos.

Como os cilindros são transportados na lateral do corpo do mergulhador durante o mergulho, isso possibilita a passagem por locais mais apertados, se o mergulhador for treinado para tal. Fiquei anos sem poder passar por um obstáculo em uma caverna marinha, pelo fato dos cilindros duplos serem volumosos e batiam no teto baixo. Na primeira oportunidade que tive em mergulhar com a configuração sidemount, passei pelo obstáculo e alcancei o final do conduto com tranquilidade.

Por não requerer a utilização do backplate, o volume de equipamentos será menor e terá menos peso, sendo um aspecto importante quando falamos em bagagem nos voos. Só em não usar um backplate são pelo menos entre 2 e 3Kg a menos na bagagem, se levarmos em consideração o peso do modelo de backplate mais utilizado pelos mergulhadores.

Além disso, dependendo do modelo de colete sidemount, é possível adicionar algumas pedras de lastro nos suportes localizados no espaço entre as costas do mergulhador e a asa propriamente dita, cumprindo assim, o aspecto de lastro que o backplate faria.

Não diria que é um aspecto negativo, mas que deve ser levado em consideração, é que o mergulhador deverá possuir um gerenciamento e atenção aprimorados quanto ao consumo de gases dos cilindros. A técnica do sidemount existe e jamais o mergulhador interessado pode achar que é só colocar dois cilindros e sair mergulhando.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Conclusão

Hoje vemos um aumento exponencial de mergulhadores utilizando a configuração de sidemount em todo o mundo, e no Brasil não é diferente.

Eu mesmo parei de mergulhar com cilindros duplos já há bastante tempo, em virtude dos benefícios e resultados que o sidemount traz.

No passado, cheguei a ter muitas dores nas costas por causa do peso dos cilindros duplos, fora o esforço necessário no transporte deles.

Numa ocasião relativamente recente, acabei indo mergulhar com cilindros duplos em algumas cavernas, e ao descer os degraus antes de ingressar na água, um dos meus joelhos “reclamou” do esforço em excesso por causa de todo o peso que estava carregando, o que me fez lembrar os benefícios do sidemount, pois se estivesse utilizando essa configuração, não estaria passando por aquilo.

Se você está cogitando ingressar no mergulho técnico, considere as informações acima.

As configurações são extremamente seguras, mas o mergulho evolui e uma decisão errada agora, pode fazer diferença anos depois.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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