Mergulhador sem treinamento em caverna = Morte

Era um jovem que viajava lendo os inúmeros artigos da maravilhosa Revista Mergulhar, Mar Vela & Motor, Skin Diver e Scuba Times. Ficava vislumbrado com as matérias e com as numerosas publicidades nas revistas importadas, com uma vastidão de equipamentos que não tínhamos à disposição no Brasil.

Isso era década de 80 e muitas vezes saía da escola, para passar na banca e saber se alguma nova edição tinha chegado. Era assim no passado.

Numa ocasião, me deparei com um artigo do nosso querido Pedro Paulo Cunha (“PP”), falando sobre os mergulho em Ginnie Springs. Naquela época eu mal fazia ideia do que eram os mergulhos na Flórida, muito menos, que haviam cavernas mergulháveis por lá. Também não fazia ideia do que era mergulhar em caverna, e a partir desse artigo, surgiu a vontade de conhecer Ginnie Springs, porque as fotos não saíam da minha cabeça… aliás, nunca saíram, até eu realizar os cursos de mergulho em caverna e conseguir fazer a primeira visita por lá.

Mas como sabemos, o mergulho em caverna tem sim, seus riscos. Já escutei que o mergulho recreativo é considerado o terceiro esporte mais seguro do mundo, e o mergulho em caverna, o terceiro mais perigoso do mundo, mas felizmente a técnica e os equipamentos de mergulho em geral mudaram muito ao longo dos anos, e hoje, um curso completo de mergulho em caverna traz toda tranquilidade para a realização de mergulhos seguros, apesar de eu continuar achando que esse tipo de atividade não é para qualquer mergulhador, por algumas razões.

Apesar de sabermos que os equipamentos e técnicas de mergulho tenham avançado, não é raro acabarmos vendo mergulhadores adentrando em ambientes restritos e fechados, muitas vezes com teto. Por exemplo, a Gruta Azul e Camarinha em Arraial do Cabo, são bons exemplos de locais onde na minha opinião, mergulhadores sem treinamento não deveriam entrar nesses espaços. Enquanto tudo está indo bem, o mergulhos são fantásticos, mas basta ocorrer um problema e isso vira uma bola de neve, onde um mergulhador sem treinamento se apavora e com grandes chances de vir a óbito por desconhecer os procedimentos pra sair da situação de risco que ele mesmo criou e, de forma desnecessária.

Isso vale também para a penetração em naufrágios. No passado, quando o naufrágio Pinguino permitia, era comum ver mergulhadores indo da proa à popa por dentro do naufrágio.

A grande questão é quando algo sai do esperado que o mergulhador sem treinamento criou em sua mente.

Esse é um tema que vivo debatendo e tentando mostrar o quanto é importante o mergulhador possuir um treinamento para o tipo de especialidade que ele pretende realizar.

 

Caso Maldivas

Este ano tomamos conhecimento do acidente nas Maldivas, onde um grupo de cinco mergulhadores italianos sem treinamento, planejamento e equipamentos adequados, ingressaram em uma caverna marinha aos 50m de profundidade. Resumindo, tinha tudo pra dar errado.

O relatório oficial ainda não saiu, pois o governo local afirma que ainda está trabalhando com a análise do acidente, contudo, ficou claro que:

  • Independente do problema, os mergulhadores não tinham treinamento em mergulho em caverna;
  • Não possuíam treinamento em mergulho profundo com misturas;
  • Não portavam equipamentos adequados;
  • Não utilizavam mistura Trimix para não ter narcose;
  • Não havia planejamento de nada.

Resumindo, tudo errado, mas assim como nas Maldivas e obviamente nas suas devidas proporções, também vemos esse tipo de coisa por aqui.

 

As estatísticas confirmam

As chances de um acidente grave de um mergulhador sem treinamento em caverna são extremamente altas.

Em uma análise nos Estados Unidos, de 300 mortes em cavernas registradas desde 1955, mais de 90% dos acidentes ocorridos eram de mergulhadores sem formação em caverna.

Em outro levantamento detalhado, 208 mortes foram 100% de pessoas sem treinamento.

Uma pesquisa britânica indicou que mergulhadores qualificados em caverna têm taxa de incidente de 1 em 28.438 mergulhos, enquanto não qualificados têm 1 em 1.125. Ou seja, o mergulhador treinado tem 25 vezes mais chance de sobreviver.

Um estudo abrangendo de 1969 a 2007, conteve 368 mortes analisadas, onde:

  • 208 não tinham treinamento em caverna, 74 possuíam treinamento;
  • O pico de mortes ocorreu na década de 70, depois, com o avanço dos treinamentos, houve uma queda constante;
  • Afogamento por falta de gás foi a causa mais frequente.

Em outro estudo abrangendo os anos de 1985 a 2015, foram 161 mortes identificadas, onde:

  • 67 treinados, 89 não treinados e 5 com status indefinido;
  • Número anual caiu de 8 para menos de 3 por ano;

Depois que a Cave Divers Association of Australia foi criada em 1973 e o acesso às cavernas populares foi restrito aos mergulhadores treinados, as mortes praticamente cessaram na Austrália. Nos Estados Unidos a mesma coisa, pois os proprietários dos terrenos onde há caverna, passaram a exigir a certificação adequada. Isso tirou o mergulhador recreativo despreparado da caverna.

 

Conclusão

O intuito desse artigo, não é criticar, porém, mais uma vez chamar atenção dos mergulhadores sem treinamento quanto ao risco de mergulho em locais com teto e sem o devido treinamento.

Basta um problema ocorrer, como um simples “silt” (obstrução visual por sedimentos) e o pânico se instaura.

Não entre em espaços com teto ou restritos. Se um mergulhador foi você não precisa segui-lo. Lembre-se que a sua vida está em suas próprias mãos, puramente pelo poder decidir se entra ou não entra, e o não entrar, é uma garantia de regressar para a embarcação de mergulho em segurança, já o entrar num espaço teto e restrição sem treinamento e planejamento, as chances de problemas são enormes, apesar de não aparentes.

Lembre-se disso !

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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