No passado era comum os mergulhadores básicos e avançados, realizarem mergulhos profundos e alcançarem os 40 e até 50 metros de profundidade. As vezes até mais !
Não havia tantas regras e limitações como hoje em dia, e o mergulho ainda era um esporte em crescimento e sendo aperfeiçoado.
Além da técnica, os equipamentos também eram arcaicos se compararmos ao que temos disponível atualmente em qualquer boa escola, loja ou operadora de mergulho.
Ainda assim, o mergulho era realizado sob as mais diversas condições, onde tudo era visto com normalidade e de forma aventureira.
Durante minha adolescência frequentei muito a chamada Região dos Lagos, tendo como principais cidades para mergulho, Arraial do Cabo, Búzios e Cabo Frio. Naquela época a cidade de Búzios não era tão conhecida e frequentada como hoje, e sua estrada era de terra, o que afugentava muita gente. Era uma estrada cheia de buracos, poeira e complicada de trafegar.
Búzios era uma cidade pacata, com a presença massiva dos pescadores, onde tudo era rudimentar, e era sob essas circunstâncias, que eu e vários outros mergulhadores, frequentávamos aquela localidade à procura de novos pontos de mergulho, sempre tentando descobrir algo novo e diferente, realizando inúmeras saídas de praia e vasculhando cada buraco na encosta.
Sair de barco não era simples, pois não havia a quantidade de empresas de mergulho como hoje, e até onde sei, naquela época só existia a Ponto Mar operando por lá e, se não estou enganado, posteriormente a segunda operadora foi a Casamar, do amigo Kupeu.
Em algumas raras ocasiões, realizamos alguns mergulhos na face externa da famosa Ilha de Âncora, a mais afastada na localidade. A ilha recebe com frequência águas azuis, translúcidas, porém, bem geladas. Naquela época “mergulho técnico” não existia, e vale lembrar que estou falando do final da década de 80.

Realizávamos os mergulhos utilizando duplas de cilindros da Cobra Sub. Eram cilindros fabricados em aço cromo-molibdênio e que atingiam apenas 2.250 PSI cada. Eram dotados de um manifold com apenas uma saída de gás no padrão Yoke, e pra piorar o cenário, com reserva. Se você não sabe o que é uma válvula com reserva, leia aqui para entender o conceito.
Como não tínhamos manômetro, o sistema de válvula J era muito utilizada na época, e quando a pressão dos cilindros atingia os 500-750 PSI, a respiração ficava bem mais pesada, indicando que o gás estava acabando.
Manômetros além de caros eram raros, e a grande maioria dos mergulhadores não o possuía, principalmente pelas dificuldades na aquisição. Alguns poucos possuíam profundímetros de membrana, e alguns mergulhadores como eu mesmo, ainda usava profundímetros de coluna d’água, que além de arcaicos, eram imprecisos.
Computador digital de mergulho ainda não existia, e usávamos as tabelas descompressivas da marinha americana para gerenciar o mergulho, o que era muito ruim, pois tínhamos um perfil quadrado, bem diferente do multinível aplicado atualmente. Lembro que usava uma tabela fabricada pela Air Sub, uma empresa brasileira que chegou a produzir alguns equipamentos no passado. Posteriormente usamos as da Scubatec do amigo Lúcio Engler. Ambas fabricadas em material plástico e que levávamos fixadas conosco com cabos de nylon.
Colete equilibrador também era raro e o que se via eram os coletes “babadores”, coletes que eram vestidos introduzindo a cabeça e fixados ao mergulhador por duas cintas, sendo uma delas, entrepernas. Um verdadeiro “crime” para os homens, porque ao inflar na superfície, o mergulhador era puxado para cima pela cinta que passava no meio das pernas, então imagine o quanto isso era desconfortável.
Sob essas condições alcançávamos os 40 / 45m de profundidade com uma água bem gelada, porém clara até certa profundidade, revelando as belezas naturais daquele lugar ainda intocado. Víamos enormes cardumes de xaréus que se aproximavam dos mergulhadores, tamanha a curiosidade que tinham com a nossa presença e com os ruídos que produzíamos.
Depois de um bom tempo no fundo, levando em consideração as limitações para a época, regressávamos até a superfície para realizar a descompressão cansativa, pois os reguladores eram os US Gold da Cobra Sub, fabricados com pistão e sem balanceamento. Uma respiração pesada e impensável nos dias atuais, mas nada que tornasse o mergulho impossível, afinal, tudo era uma aventura, do início ao fim.
Numa ocasião realizando uma deco, um pequeno tubarão azul se aproximou de nós com sua curiosidade. Foi a primeira vez que eu vi um animal desses, e foi uma grande euforia em todos, que apesar das raras fotografias tiradas na época, a imagem desse momento ainda permanece em nossas memórias.

Depois dessas aventuras (ou loucuras), era retornar para Búzios já anoitecendo na lenta embarcação, tomar um bom banho e curtir a noite na Rua das Pedras, principal avenida onde até hoje estão os principais restaurantes, bares e lojas da cidade.
É o local onde a noite acontece, e foi numa dessas idas e vindas à Búzios, que numa ocasião chegamos ao píer depois da meia-noite e as pessoas ficavam nos observando atravessando a rua todos ainda equipados, e ninguém entendia de onde estávamos vindo àquela hora, o que gerou muitas risadas entre os mergulhadores.
Bons tempos aqueles.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



